Page 41 - SIM 314
P. 41

LITERATURA






                         “Um exercício de ficção
                         que procura resgatar do
                         silêncio e da suspeita uma
                         figura mítica e histórica”


























               Silentia, Liturgia de Silêncios assume-se, assim, como “um exercício de fic-  sível, de maior ou menor. Continua a ser uma espécie de mistério essen-
               ção que procura resgatar do labirinto indefinido do silêncio e da suspeita   cial”, confessa a autora, sublinhando a importância do reconhecimento
               uma figura simultaneamente mítica e histórica do imaginário português”.   por leitores desconhecidos. Mais do que o valor monetário, permanece “o
               O projeto literário passa por “refazer, fundindo-as num mesmo corpo e   testemunho de que a proposta é válida e toca a sensibilidade de quem lê”.
               numa mesma alma”, a freira histórica, a suposta autora das cartas e ainda
               um outro arquétipo de abandono feminino: Ariadne. O objetivo é claro:   “A experiência de receber um segundo prémio de Literatura só é mais
               “oferecer à nossa misteriosa Mariana a ocasião de se resgatar desse ân-  emocionante do que a primeira porque de algum modo confirma a certe-
               gulo de perspetivação tão limitado, que a fixou à imagem pobre de uma   za de que o caminho não é em vão. Desde agosto de 2024, quando recebi
               desvairada de amor”.                                   cheia de deslumbramento a notícia de que um júri, em Câmara de Lobos,
                                                                      distinguiu com apreço um conto meu, ganhei a coragem de submeter ou-
               A estrutura do romance reflete esse universo interior. Organizado segun-  tros textos a concursos. Tenho vários textos a circular. Silentia foi um deles”.
               do a Liturgia das Horas - Vigília, Laudes, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Véspe-
               ras e Completas -, o livro acompanha “uma biografia contínua, vista à luz   Para Ana Paula Pinto, escrever é uma forma de libertação: “só pela ma-
               da morte que se aproxima”. Entre dados históricos e imaginação, o leitor   gia das palavras se rasga às vezes o véu de silêncio que enclausura numa
               encontra “a transfiguração desse mistério de silêncios”, numa memória   solidão essencial essa pessoa que somos”. Ler e escrever são, afirma, “as
               que “soçobra à dor, em alucinação crescente”.          únicas verdadeiras formas de expandir a alma”, de “vencer a solidão” e de
               Tentando explicar o que a move na escrita, Ana Paula Pinto confessa:   criar pontes com os outros. Daí o apelo final: “quem gostar de escrever,
               “acho que passa pela intuição que tenho de que só pela magia das pala-  não deixe de o fazer. E de se dar a ler”.
               vras se rasga às vezes o véu de silêncio que enclausura numa solidão es-  “O meu agradecimento a quantos me acompanharam no processo desta
               sencial essa pessoa que somos”.                        gestação literária, chegada agora a bom termo. Aos que se prontificaram
               “Toda a criação artística deve trazer consigo esse poder libertador de en-  a ler, em especial aos grandes amigos, Padre José Lopes SJ (que apreciou
               contro. Mas a que pessoa que sou, em clausura, só sabe libertar-se lendo e   comigo, desde o início, a dolência da voz da Mariana), a João Angelo Oliva
               escrevendo. Leio e escrevo desde que me conheço por gente – e só assim   Neto e à esposa Silvana (a matriz da minha Silvana), aos padres Mário Gar-
               me conheço por gente. Ler e escrever são para mim as únicas verdadeiras   cia Sj e Nuno Gonçalves, SJ, que acarinharam o texto completo, e à minha
               formas de expandir a alma além dos limites mesquinhos de quem somos   mãe, que ainda tentou lê-lo, mas se cansou a meio!”.
               e de quem nos veem. De podermos ser mais. De estarmos religados com
               o Absoluto”.                                           O agradecimento estende-se “à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira,
                                                                      por este prémio literário bienal tão extraordinário, que já vai na 10.ª edição
               É o segundo prémio literário conquistado pela autora   a distinguir talento inédito, reconhecendo e homenageando, em simultâ-
               Depois de ter arrecadado o primeiro prémio literário, há pouco mais de   neo, a memória de um filho da terra, Alves Redol, que tanto legou à Litera-
               um ano, com o conto ‘Ilhas’, vencedor do Prémio D’Ornellas, promovido   tura Portuguesa!”, destacou a autora.
               pelo Município de Câmara de Lobos, a escritora Ana Paula Pinto acaba de   Quanto ao futuro, o caminho continua aberto. Há textos em circulação,
               conquistar o segundo – o Prémio Literário Alves Redol, da Câmara Muni-  concursos, histórias por acabar. “Entusiasma-me sentir-me desafiada a
               cipal de Vila Franca de Xira, na categoria de romance, com  a obra Silentia,   escrever.” Depois de entregar ao mundo uma Mariana Alcoforado octo-
               Liturgia de Silêncios.                                 genária, a autora já dialoga com novas personagens. Com esperança —

               Receber um segundo prémio literário, depois da distinção obtida no ano   porque acredita que “a Literatura é o meio mais eficaz de fazermos leve-
               anterior com um conto, não diminuiu o espanto. “Não tem graduação pos-  dar a nossa esperança: em nós, no mundo, na vida”.

               #SIMatuaREVISTA                                  JANEIRO · 2026                                           41
   36   37   38   39   40   41   42   43   44   45   46