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LITERATURA
“Um exercício de ficção
que procura resgatar do
silêncio e da suspeita uma
figura mítica e histórica”
Silentia, Liturgia de Silêncios assume-se, assim, como “um exercício de fic- sível, de maior ou menor. Continua a ser uma espécie de mistério essen-
ção que procura resgatar do labirinto indefinido do silêncio e da suspeita cial”, confessa a autora, sublinhando a importância do reconhecimento
uma figura simultaneamente mítica e histórica do imaginário português”. por leitores desconhecidos. Mais do que o valor monetário, permanece “o
O projeto literário passa por “refazer, fundindo-as num mesmo corpo e testemunho de que a proposta é válida e toca a sensibilidade de quem lê”.
numa mesma alma”, a freira histórica, a suposta autora das cartas e ainda
um outro arquétipo de abandono feminino: Ariadne. O objetivo é claro: “A experiência de receber um segundo prémio de Literatura só é mais
“oferecer à nossa misteriosa Mariana a ocasião de se resgatar desse ân- emocionante do que a primeira porque de algum modo confirma a certe-
gulo de perspetivação tão limitado, que a fixou à imagem pobre de uma za de que o caminho não é em vão. Desde agosto de 2024, quando recebi
desvairada de amor”. cheia de deslumbramento a notícia de que um júri, em Câmara de Lobos,
distinguiu com apreço um conto meu, ganhei a coragem de submeter ou-
A estrutura do romance reflete esse universo interior. Organizado segun- tros textos a concursos. Tenho vários textos a circular. Silentia foi um deles”.
do a Liturgia das Horas - Vigília, Laudes, Prima, Tércia, Sexta, Noa, Véspe-
ras e Completas -, o livro acompanha “uma biografia contínua, vista à luz Para Ana Paula Pinto, escrever é uma forma de libertação: “só pela ma-
da morte que se aproxima”. Entre dados históricos e imaginação, o leitor gia das palavras se rasga às vezes o véu de silêncio que enclausura numa
encontra “a transfiguração desse mistério de silêncios”, numa memória solidão essencial essa pessoa que somos”. Ler e escrever são, afirma, “as
que “soçobra à dor, em alucinação crescente”. únicas verdadeiras formas de expandir a alma”, de “vencer a solidão” e de
Tentando explicar o que a move na escrita, Ana Paula Pinto confessa: criar pontes com os outros. Daí o apelo final: “quem gostar de escrever,
“acho que passa pela intuição que tenho de que só pela magia das pala- não deixe de o fazer. E de se dar a ler”.
vras se rasga às vezes o véu de silêncio que enclausura numa solidão es- “O meu agradecimento a quantos me acompanharam no processo desta
sencial essa pessoa que somos”. gestação literária, chegada agora a bom termo. Aos que se prontificaram
“Toda a criação artística deve trazer consigo esse poder libertador de en- a ler, em especial aos grandes amigos, Padre José Lopes SJ (que apreciou
contro. Mas a que pessoa que sou, em clausura, só sabe libertar-se lendo e comigo, desde o início, a dolência da voz da Mariana), a João Angelo Oliva
escrevendo. Leio e escrevo desde que me conheço por gente – e só assim Neto e à esposa Silvana (a matriz da minha Silvana), aos padres Mário Gar-
me conheço por gente. Ler e escrever são para mim as únicas verdadeiras cia Sj e Nuno Gonçalves, SJ, que acarinharam o texto completo, e à minha
formas de expandir a alma além dos limites mesquinhos de quem somos mãe, que ainda tentou lê-lo, mas se cansou a meio!”.
e de quem nos veem. De podermos ser mais. De estarmos religados com
o Absoluto”. O agradecimento estende-se “à Câmara Municipal de Vila Franca de Xira,
por este prémio literário bienal tão extraordinário, que já vai na 10.ª edição
É o segundo prémio literário conquistado pela autora a distinguir talento inédito, reconhecendo e homenageando, em simultâ-
Depois de ter arrecadado o primeiro prémio literário, há pouco mais de neo, a memória de um filho da terra, Alves Redol, que tanto legou à Litera-
um ano, com o conto ‘Ilhas’, vencedor do Prémio D’Ornellas, promovido tura Portuguesa!”, destacou a autora.
pelo Município de Câmara de Lobos, a escritora Ana Paula Pinto acaba de Quanto ao futuro, o caminho continua aberto. Há textos em circulação,
conquistar o segundo – o Prémio Literário Alves Redol, da Câmara Muni- concursos, histórias por acabar. “Entusiasma-me sentir-me desafiada a
cipal de Vila Franca de Xira, na categoria de romance, com a obra Silentia, escrever.” Depois de entregar ao mundo uma Mariana Alcoforado octo-
Liturgia de Silêncios. genária, a autora já dialoga com novas personagens. Com esperança —
Receber um segundo prémio literário, depois da distinção obtida no ano porque acredita que “a Literatura é o meio mais eficaz de fazermos leve-
anterior com um conto, não diminuiu o espanto. “Não tem graduação pos- dar a nossa esperança: em nós, no mundo, na vida”.
#SIMatuaREVISTA JANEIRO · 2026 41

