Page 40 - SIM 314
P. 40

LITERATURA                                                                                                                              LITERATURA


               Obra de docente da Universidade Católica – Centro Regional de Braga resgata
               o silêncio e o mito de Mariana Alcoforado
               ANA PAULA PINTO VENCE PRÉMIO


               LITERÁRIO ALVES REDOL COM ROMANCE

               SILENTIA, LITURGIA DE SILÊNCIOS


               TEXTO: Marta Amaral Caldeira FOTOS: Hugo Delgado



































              H            á livros que nascem de um gesto de resistência contra   Só muitos anos depois é que surgiu o encontro direto com a obra Cartas


                           o silêncio. Silentia, Liturgia de Silêncios é o título da
                                                                       Portuguesas, uma das obras mais célebres e controversas da Literatura
                           obra  recentemente  distinguida  com  o  primeiro  pré-
                                                                       Portuguesa e Europeia, publicada em 1669, em Paris, França. Mais do
                           mio na categoria de romance do Prémio Literário Al-
                                                                       que a linguagem, foi o mistério da autoria que se impôs.
                           ves Redol, é um desses casos. Da autoria de Ana Paula
                           Pinto,  professora  de  Línguas  Clássicas  e  doutorada   “O ano passado, numa daquelas disposições culpadas que às vezes te-
               em Literatura Grega da Universidade Católica Portuguesa – Centro   mos, fui procurar uma edição da obra Cartas Portuguesas. Mais do que
               Regional de Braga, a obra resulta de uma longa maturação interior e   a escrita, produto de traduções muito díspares (porque as Cartas Por-
               intelectual, onde a necessidade de escrever surge como impulso vi-  tuguesas têm no germe do seu mistério o facto de serem retiradas de
               tal, quase existencial: escrever para dizer, para atravessar o silêncio,   uma versão francesa), começou a avolumar-se no labirinto das minhas
               para existir.                                           incertezas o mistério da autoria”, conta.
                                                                       Independentemente da controvérsia sobre a autenticidade das cartas,
               “Para quem gosta de escrever, e sente que vive para isso, a inspiração
               básica é mesmo a necessidade de expressão”. É assim que a autora do   há uma figura histórica real: “viveu em Beja, entre 1640 e 1723, uma pes-
               romance explica a origem do romance. Mais do que uma história, o livro   soa histórica, Mariana Alcoforado, que faleceu aos 83 anos de idade,
               nasce de um impulso vital: “uma necessidade de transitividade, aquela   na clausura do Convento da Conceição”. Dessa mulher “quase nada se
               que luta contra o silêncio”. E não é por acaso que o silêncio se impõe   sabe, e muito se inventa”, sublinha Ana Paula Pinto. E foi precisamente
               como tema central da obra, “como um véu que se sobrepõe a tudo o   essa criatura silenciosa que “começou a vozear dentro de mim”.
               que somos”.                                             “O vulto dramático dessa mulher, a sonhar com a liberdade, e abando-
                                                                       nada na clausura”, começou a ocupar o centro da reflexão, numa troca
               A génese de Silentia, Liturgia de silêncios cruza o percurso académico
               e a escrita literária. Tudo começou com um artigo sobre Safo -  uma das   prolongada de correspondência, o professor João Angelo Oliva Neto
               maiores poetisas da Grécia Antiga (630–570 a.C.), natural da ilha de   insistia numa associação inesperada: a presença de ecos de Mariana Al-
               Lesbos, no mar Egeu -, enviado a uma revista brasileira de estudos clás-  coforado na escrita da autora. “Eu, a rir-me com embaraço, garantia-lhe
               sicos. Refira-se que Safo é considerada a mais importante voz lírica femi-  que era muito improvável, porque nunca tinha lido a Mariana.” O tempo
               nina da Antiguidade e uma das grandes figuras da literatura ocidental.   passou, a amizade consolidou-se, mas “o tema do fantasma da Mariana
               enviado a uma revista brasileira de estudos clássicos.   Alcoforado era recorrente”.

               40                                               JANEIRO · 2026                               #SIMatuaREVISTA                                                                            JANEIRO · 2026
   35   36   37   38   39   40   41   42   43   44   45