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LITERATURA LITERATURA
Obra de docente da Universidade Católica – Centro Regional de Braga resgata
o silêncio e o mito de Mariana Alcoforado
ANA PAULA PINTO VENCE PRÉMIO
LITERÁRIO ALVES REDOL COM ROMANCE
SILENTIA, LITURGIA DE SILÊNCIOS
TEXTO: Marta Amaral Caldeira FOTOS: Hugo Delgado
H á livros que nascem de um gesto de resistência contra Só muitos anos depois é que surgiu o encontro direto com a obra Cartas
o silêncio. Silentia, Liturgia de Silêncios é o título da
Portuguesas, uma das obras mais célebres e controversas da Literatura
obra recentemente distinguida com o primeiro pré-
Portuguesa e Europeia, publicada em 1669, em Paris, França. Mais do
mio na categoria de romance do Prémio Literário Al-
que a linguagem, foi o mistério da autoria que se impôs.
ves Redol, é um desses casos. Da autoria de Ana Paula
Pinto, professora de Línguas Clássicas e doutorada “O ano passado, numa daquelas disposições culpadas que às vezes te-
em Literatura Grega da Universidade Católica Portuguesa – Centro mos, fui procurar uma edição da obra Cartas Portuguesas. Mais do que
Regional de Braga, a obra resulta de uma longa maturação interior e a escrita, produto de traduções muito díspares (porque as Cartas Por-
intelectual, onde a necessidade de escrever surge como impulso vi- tuguesas têm no germe do seu mistério o facto de serem retiradas de
tal, quase existencial: escrever para dizer, para atravessar o silêncio, uma versão francesa), começou a avolumar-se no labirinto das minhas
para existir. incertezas o mistério da autoria”, conta.
Independentemente da controvérsia sobre a autenticidade das cartas,
“Para quem gosta de escrever, e sente que vive para isso, a inspiração
básica é mesmo a necessidade de expressão”. É assim que a autora do há uma figura histórica real: “viveu em Beja, entre 1640 e 1723, uma pes-
romance explica a origem do romance. Mais do que uma história, o livro soa histórica, Mariana Alcoforado, que faleceu aos 83 anos de idade,
nasce de um impulso vital: “uma necessidade de transitividade, aquela na clausura do Convento da Conceição”. Dessa mulher “quase nada se
que luta contra o silêncio”. E não é por acaso que o silêncio se impõe sabe, e muito se inventa”, sublinha Ana Paula Pinto. E foi precisamente
como tema central da obra, “como um véu que se sobrepõe a tudo o essa criatura silenciosa que “começou a vozear dentro de mim”.
que somos”. “O vulto dramático dessa mulher, a sonhar com a liberdade, e abando-
nada na clausura”, começou a ocupar o centro da reflexão, numa troca
A génese de Silentia, Liturgia de silêncios cruza o percurso académico
e a escrita literária. Tudo começou com um artigo sobre Safo - uma das prolongada de correspondência, o professor João Angelo Oliva Neto
maiores poetisas da Grécia Antiga (630–570 a.C.), natural da ilha de insistia numa associação inesperada: a presença de ecos de Mariana Al-
Lesbos, no mar Egeu -, enviado a uma revista brasileira de estudos clás- coforado na escrita da autora. “Eu, a rir-me com embaraço, garantia-lhe
sicos. Refira-se que Safo é considerada a mais importante voz lírica femi- que era muito improvável, porque nunca tinha lido a Mariana.” O tempo
nina da Antiguidade e uma das grandes figuras da literatura ocidental. passou, a amizade consolidou-se, mas “o tema do fantasma da Mariana
enviado a uma revista brasileira de estudos clássicos. Alcoforado era recorrente”.
40 JANEIRO · 2026 #SIMatuaREVISTA JANEIRO · 2026

