Entrámos um pouco nos bastidores do São João e depressa sentimos no olhar o amor e o orgulho que têm pelas festas da cidade. Mas entre o orgulho de quem resiste há também uma preocupação crescente: nas associações multiplicam-se os cabelos brancos e faltam jovens para garantir que a alma não se perca no tempo.
Enquanto milhares de pessoas vivem intensamente as Festas de São João, há uma outra festa que acontece nos bastidores. Uma festa silenciosa, feita de reuniões, telefonemas, planeamento, formação, desafios e muitas horas de trabalho voluntário e não remunerado. Uma festa que dura um ano inteiro. Há quem aproveite a reforma para passar os dias mais vivos, há quem tire férias para se entregar de corpo e alma. Há ainda quem consiga conciliar vida profissional, vida pessoal com horas infinitas dedicadas à tradição, à cultura, à cidade.
À frente desta missão está Daniela Pereira, presidente da Associação de Festas de São João, que coordena uma equipa de cerca de 50 voluntários responsáveis pelas mais diversas áreas, desde a comunicação aos patrocínios, da logística à segurança, da saúde às acessibilidades e à gestão do espaço público. Aos coordenadores juntam-se ainda mais 150 voluntários de todas as idades. “Há muita gente a fervilhar para que tudo aconteça”, resume.
O compromisso é tão profundo que, mal terminam as desmontagens, começa o trabalho para a edição seguinte. “O objetivo é iniciar a preparação do São João de 2027 a partir de 30 de junho. Queremos continuar a valorizar e a elevar estas festas que são património de todos”, sublinha Daniela Pereira.
MANTER VIVA AS TRADIÇÕES
A riqueza da equipa está também na diversidade. Entre os voluntários encontram-se jovens que acabam de atingir a maioridade e seniores que carregam décadas de experiência. Pessoas com percursos, profissões e visões diferentes, unidas por uma causa comum: manter viva uma tradição que atravessa gerações.
É o caso de José Manuel Ferreira, de 71 anos, sócio-fundador da Associação de Festas de São João. Ligado à organização desde 1991, dedica-se, agora, à preparação dos eventos motorizados e do emblemático Desfile das Rusgas. “Esta aventura dá muito gozo e muito orgulho. Somos voluntários, não há vencimentos, há espírito de missão”, afirma.
Bracarense de nascimento, viu as festas crescerem e transformarem-se numa referência nacional. Mas deixa também um alerta: “há muito cabelo branco e muitas rugas nas associações. É cada vez mais difícil captar juventude. Gostava de ver mais jovens a participarem e a oferecerem-se como voluntários. Sem eles será cada vez mais difícil manter estas tradições.”
Aos 27 anos, Ana Teixeira representa precisamente essa nova geração. Depois de ter sido voluntária há uns anos, regressou agora para coordenar a equipa de Comunicação. “É uma experiência incrível. Obriga-nos a ser produtivos, desenrascados e ajuda-nos a desenvolver competências que levamos para a vida”, explica.
Num tempo marcado pela velocidade e pela constante ligação aos ecrãs, acredita que os jovens precisam de voltar a encontrar espaço para causas que os liguem à comunidade. “Andamos sempre a correr e parece que nunca temos tempo para nada. Mas basta organizarmo-nos e perdermos um pouco o vício dos telemóveis para nos envolvermos e criarmos algo que é nosso”, constata Ana, confidenciando que “contribuir para o São João é algo único.”
“NINGUÉM TEM FUTURO SEM CONHECER O SEU LEGADO”
Também Filipe Lourenço encontrou no voluntariado uma forma de retribuir à cidade que escolheu para viver. Natural de Águeda, reside em Braga desde 2017 e lidera atualmente a equipa de Parceiros e Patrocinadores. A missão nem sempre é fácil. Entre contactos, reuniões e muitas portas batidas, ouviu vários “nãos”. Ainda assim, nunca deixou que isso apagasse a motivação. “Manter a chama acesa é fundamental. Continuámos a procurar soluções e conseguimos estabelecer parcerias que queremos ver crescer nos próximos anos”, conta o voluntário, referindo que muitos dos novos parcerios assumiram ‘contrato’ para os próximos quatro anos.
Entre viagens profissionais e compromissos familiares, gere o tempo para continuar a contribuir para as festas. “Já me sinto de Braga. Quero ajudar a preservar esta identidade e fazer com que a minha filha também se reveja nela.”
Para Inácio Ferreira, de 49 anos, o São João faz parte da própria identidade bracarense. Desde 2019 que dedica 15 dias de férias exclusivamente à festa. Participa em várias iniciativas, desde as Cascatas ao Cortejo Etnográfico, passando pela preparação das flores da tradicional Aclamação. Por detrás daquele colorido tapete natural que encanta milhares de pessoas existe um trabalho invisível e exigente: recolher, selecionar, cortar e conservar flores durante dias. “É um trabalho árduo, mas quando vemos o resultado final sentimos que valeu a pena”, refere.
No final das festas, a sensação é de alívio, mas também de realização. “Quero dizer aos mais novos para não desistirem das tradições. Ninguém tem futuro sem conhecer o seu legado. É aí que encontramos as nossas raízes e ganhamos força para seguir em frente”, desafia.
Num mundo onde o tempo parece cada vez mais escasso e o individualismo ganha terreno, os voluntários das Festas de São João lembram-nos de algo essencial: as maiores celebrações não se constroem apenas com luzes, concertos ou fogo de artifício. Constroem-se com pessoas.
Quando as ruas se enchem de festa, raramente vemos os rostos de quem trabalhou durante um ano para que tudo acontecesse. Mas talvez seja precisamente aí que reside a verdadeira magia do São João: na generosidade silenciosa de quem faz da dedicação uma forma de amor à cidade.




