Assumida como a “maior festa do concelho e a mais antiga festa sanjoanina de Portugal”, Braga volta a celebrar com renovado entusiasmo as seculares ‘Festas de São João’, cuja singularidade se afirma no contexto nacional pela sua origem medieval e notável desenvolvimento durante a época moderna. Profundamente enraizado na memória coletiva da cidade, o ‘São João de Braga’ continua a constituir um dos mais expressivos testemunhos de expressão comunitária, onde a luz, a cor e a alegria invadem as ruas da urbe bracarense durante uma semana. O programa combina tradições intemporais e momentos emblemáticos, como o Carro das Ervas, o Auto do Carro dos Pastores e a Dança do Rei David, com figuras icónicas como gigantones e cabeçudos, zésp’reiras, cavaquinhos e concertinas, grupos folclóricos, cantares ao desafio e bandas filarmónicas.

Barraquinhas regressam à Avenida da Liberdade

Entre as principais novidades anunciadas para este ano destacam-se o regresso das tradicionais barraquinhas à Avenida da Liberdade – que passam a servir para as freguesias e o tecido associativo bracarense mostrar o seu trabalho -, a descentralização das festas pelas freguesias, a implementação de um plano de acessibilidades, o reforço da presença de artistas locais e um maior envolvimento do comércio tradicional. 

São 37 freguesias e um manto de cor que é erguido e estendido de acordo com a atividade do programa. Porém, o que não pode falhar são as ornamentações da festa. Um imenso carrossel de detalhe e cor que saí de um armazém localizado em Morreira, ligar que dista a escassos quilómetros da sede do concelho.

“Tudo é feito de raiz"

Paula Gomes deixou o comércio para ajudar o marido, José Martins, na empresa responsável pelas ornamentações da ‘Festa de São João’. Aconteceu há quatro anos. O início foi difícil, mas hoje é uma mulher feliz: “fiz uma mudança muito grande na minha vida, mas gosto muito do que estou agora a fazer. A adrenalina é diferente. No momento da inauguração, quando vemos que tudo corre bem…é uma emoção muito grande (emociona-se) … só aí conseguimos descomprimir”. 

A empresária lembra que “é preciso ter fé e muito gosto”, até porque o trabalho é duro. São três meses sem descanso. Faça sol, faça chuva: “fazemos tudo de raiz. Tudo manualmente. Desde 

as estruturas, fazer o ‘festão’, colar o plástico artesanal, pintar de acordo com o projeto. Todos os anos é um projeto diferente”.

“Pessoal novo não quer trabalho"

Cabe à Associação de Festas de São João de Braga (AFSJB), agora presidida pela jovem Ana Daniela Pereira, entregar o projeto à empresa que terá de cumprir à risca a complexidade das ornamentações. Um trabalho de mina que envolve perto de uma dezena de pessoas, grupo responsável pela produção, instalação e recolha. Paula Gomes recorda que todos os anos é diferente. Gira em volta do tema. O que não muda é a data (17 de junho) onde tudo tem de estar aplicado nas ruas da cidade. Empreitada por vezes hercúlea pela falta de mão de obra: “são três meses de trabalho. Mais de 10 horas por dia. Às vezes até mais. Não é fácil nesta altura arranjar jovens para trabalhar. No São João, faça sol ou faça chuva, a gente tem de andar. O pessoal novo não quer trabalho”. 

“Material devia ser reaproveitado"

Outro lamento da entrevistada está neste facto: “depois do São João é tudo lixo. Até dói a alma… é muito trabalho, muito investimento… devia-se aproveitar o material. Não diria na sua totalidade, mas algum sim”. A fechar, dá este exemplo: “só no ‘festão’ gastámos mais de 20 quilómetros de material. Enrolar uma flor do ‘festão’ demora uma hora. Imagine o material que isto leva…”. Um tricot de arte e engenho que irá ser desenrolado. Para o ano, há mais!