O cheiro da terra acabada de colher mistura-se com o dos petiscos e das castanhas assadas. Os pregões cruzam-se com os regateios. As mãos escolhem flores, pesam a frescura dos legumes e apalpam tecidos. Entre sacos que se enchem, moedas que mudam de mãos e cafés bebidos em jeito de ritual, Barcelos pulsa ao ritmo da sua feira. Mas, sobre o chão de paralelo, há muito mais do que mercadoria: há vidas inteiras de trabalho, gerações que resistem ao tempo e mulheres que, mesmo depois de perderem os companheiros de uma vida, continuam a chegar à quinta-feira. Aos 85 anos, Maria Isaura é uma delas. E é na sua banca, sem balcão nem montra, que talvez  comece uma das histórias mais bonitas desta feira. 

 

À quinta-feira, Barcelos não se limita a fazer uma feira. Põe à vista séculos de história, o trabalho de gerações e a teimosia bonita de quem continua a chegar, semana após semana, para vender aquilo que a terra dá, as mãoscriam e a vida ensinou. À quinta-feira, há uma cidade que se instala dentro de Barcelos. Tem o seu próprio ritmo, os seus sons, as suas cores, os seus cheiros e uma linguagem que não se aprende nos livros.  

Fala-se alto, negoceia-se, cumprimenta-se quem já se conhece há décadas e pergunta-se pela família antes de perguntar o preço. Há quem venha comprar, quem venha vender e quem apareça simplesmente porque não sabe imaginar uma quinta-feira sem passar pela feira. Aqui, até o tempo parece obedecer a outras regras. 

Aqui, compra-se, vende-se, conversa-se e regateia-se. “Não faz por menos?”. A pergunta atravessa gerações, tal como a resposta pronta de quem conhece o valor do que tem para oferecer. Há fregueses que chegam com a lista feita e outros que se deixam conquistar pelo que encontram. Pelo meio, trocam-se cumprimentos, perguntam-se novidades e comentam-se os preços. Porque, nesta feira, a compra raramente se resume ao dinheiro que muda de mãos. Há relações construídas ao longo de anos, confiança que não precisa de etiquetas e rostos que se reconhecem mesmo antes de se ouvirem as primeiras palavras. 

O Campo da Feira enche-se de cores, vozes e movimento. Cedo. Muito cedo. Entre bancas, sacos e cestos, cruzam-se habitantes, emigrantes, visitantes e turistas que procuram levar consigo um pedaço de Barcelos. Há galos de todas as dimensões, andorinhas que conquistaram lugar na moda das recordações, loiças, bordados, madeira trabalhada, frutos secos, legumes da época, muita fruta, roupa e calçado para todos os gostos e tantos outros objetos que tornam difícil percorrer a feira sem parar. 

O convite é para olhar devagar. Porque, por detrás de cada banca, há quase sempre uma história. Algumas começaram há pouco tempo. Outras começaram muito antes de quem hoje as conta ter idade para perceber o que significava trabalhar. E há negócios que passaram de pais para filhos, acompanhando as mudanças do país sem perderem a ligação à terra, às pessoas e aos lugares. 

Há um momento em que deixamos de saber onde acaba uma banca e começa a seguinte. Os legumes dão lugar ao bacalhau, os frutos secos sucedem-se às loiças, os galos de barro espreitam entre as recordações e as vozesdos vendedores disputam espaço com o burburinho de quem percorre o Campo da Feira.  

 

Ainda há uma quinta-feira à espera

É nesse mundo, onde o comércio se mistura com a memória, que encontramos Maria Isaura. Tem 85 anos, é de Chorente, no concelho de Barcelos, e, às quintas-feiras, continua a trazer para Barcelos aquilo que o quintal lhedá. Não há balcão, montra ou estrutura elaborada. A banca é o próprio chão de paralelo, onde dispõe os legumes da época, os ovos, as galinhas, os limões e o que mais houver para vender. Tudo aquilo que o quintal dá e que, na véspera, preparou para trazer à feira. À quarta-feira colhe, à quinta-feira vende. O segredo, garante, é levar tudo “fresquinho”. 

Aos olhos de quem passa, pode ser apenas mais um lugar de venda. Para Maria Isaura, é uma vida inteira. Os pais ensinaram os nove filhos a fazer de tudo. A agricultura não era uma escolha entre muitas: era a vida queconheciam e o trabalho que garantia o sustento. Ainda frequentava a escola quando começou a ir à praça de Viatodos, também no concelho de Barcelos. Levava à cabeça os produtos do campo. Aos 11 anos, quando deixou aescola, passou a acompanhar a mãe à feira de Barcelos. Mais tarde, continuou a atividade ao lado do marido. O calendário mudou, os anos passaram e a vida obrigou-a a despedidas. Mas a quinta-feira permaneceu. 

Hoje, é o filho quem, na maioria das semanas, lhe dá boleia e a deixa na feira por volta das sete da manhã. “Já não venho muito cedo”, confessa. Quando ele não pode, apanha “a carreira”. O importante é chegar ao lugaronde continua a sentir-se em casa. 

Enquanto conversamos, uma freguesa aproxima-se e compra ovos. Maria Isaura garante que são bons. “Leve, são amarelinhos, porque as galinhas comem milho e andam soltas”, atira. A cliente não precisa de grandesexplicações. “São bons, sim senhora. Já levei a semana passada”, responde, com a segurança de quem conhece o produto e quem o vende. 

Maria Isaura sorri. Há rugas que o tempo desenhou, mas há também a familiaridade de quem não precisa de convencer toda a gente de que merece confiança. Algumas relações comerciais constroem-se assim: uma compra, uma conversa, uma semana, outra semana. E, sem darem por isso, vendedores e fregueses passam a fazer parte da vida uns dos outros. “Não sou de estar parada, gosto deste convívio, de falar com as pessoas”, refere.  A frase explica talvez tanto como qualquer outra a razão de continuar ali. A feira é trabalho e rendimento, mas é também encontro, pertença e uma forma de permanecer ligada ao mundo. Já só restam duas dos nove irmãos, lamenta. Ainda assim, Maria Isaura continua a preparar os produtos, a estendê-los no chão e a receber quem passa.  

Ao lado desta história, há outra que quase se confunde com ela. Lucinda Azevedo tem 77 anos, é de Alvelos, também no concelho de Barcelos, e conhece Maria Isaura há anos. Os percursos aproximam-nas: ambas cresceramno trabalho da terra, ambas aprenderam cedo a vender e ambas continuaram a fazer feira depois da morte dos maridos. Hoje, permanecem lado a lado. Dizem que uma “salvou” a outra quando ficaram viúvas. A palavra nãoprecisa de explicações grandiosas. Às vezes, salvar alguém é simplesmente não deixar que a vida se feche sobre a pessoa. É continuar a aparecer, ter com quem falar, partilhar as horas e lembrar que ainda há uma quinta-feira à espera. 

Lucinda também tem os seus “clientes certinhos”, pessoas que sabem onde encontrá-la e regressam porque confiam no que leva. Mas nem todas as semanas são iguais. Há dias “muito fraquinhos”, em que boa parte dos produtos acaba por regressar a casa. É uma realidade que nem sempre cabe na imagem romântica das feiras tradicionais. Por detrás da cor e da animação, há contas para fazer, mercadoria que tem de ser vendida e aincerteza de quem nunca sabe exatamente como correrá o dia. Ainda assim, Lucinda continua. Maria Isaura também. 

Talvez, porque a feira seja mais do que o lugar onde trabalharam toda a vida. É o lugar onde a vida, apesar de tudo, continua a acontecer.  

 

Herança transforma-se em futuro

Numa banca próxima, o bacalhau salgado e seco divide espaço com tremoços, azeitonas, cajus, avelãs, nozes, tâmaras, damascos secos e feijão de várias variedades. Andreia Sousa conhece bem o lugar que ocupa. O negóciodos pais, com cerca de 45 anos, percorre ainda as feiras semanais de Ponte de Lima, Braga, Vila Nova de Famalicão, Esposende e Vila do Conde. 

Ela e a irmã cresceram neste ambiente. Nas férias, acompanhavam os pais e ajudavam na banca. Depois, continuaram os estudos, licenciaram-se e seguiram os seus caminhos. Até que a vida lhes mudou os planos. O pai adoeceu e morreu precocemente. As duas irmãs ficaram com o negócio. Aos maridos juntaram-se alguns funcionários, e a herança transformou-se num desafio. Houve que assumir decisões, organizar equipas e garantir a continuidade de uma atividade que já tinha conquistado o seu lugar junto dos clientes. A herança não se resumia a mercadoria, fornecedores ou rotas. Incluía também um nome, uma reputação e relações de confiança construídas ao longo de décadas. “Continuamos a dar dinâmica e qualidade”, afirma. 

 

“A banca está organizada. Somos os últimos a chegar à feira, cada um de nós sabe o que tem de fazer e o trabalho é preparado para que decorra da melhor forma possível. (...) A qualidade de vida também importa a quem trabalha nas feiras e um negócio duradouro precisa de encontrar equilíbrio entre a exigência e a vida fora dele."

 

A experiência ensinou-lhes que preservar não significa fazer tudo como sempre se fez. “A banca está organizada. Somos os últimos a chegar à feira, cada um de nós sabe o que tem de fazer e o trabalho é preparado para que decorra da melhor forma possível”, explica. Andreia sabe que “a qualidade de vida também importa a quem trabalha nas feiras e que um negócio duradouro precisa de encontrar equilíbrio entre a exigência e a vida fora dele”. 

A confiança dos clientes é outro dos pilares. Muitos já conheciam os pais e continuam a aparecer. “Se vêm cá é porque gostam e tratamos muito bem”, resume a feirante, destacando a simpatia e a relação entre qualidade e preço. Andreia acredita que o contato humano ajuda a explicar a permanência da feira num mundo cada vez mais automatizado. “À medida que o tempo passa, damos conta de que vêm mais pessoas, porque gostam do contacto. Nos supermercados é só máquinas”, constata. 

Aqui, há alguém a quem perguntar, alguém que aconselha e alguém que reconhece o cliente habitual. Ainda assim, nem todos os costumes são iguais em todas as bancas: os preços estão marcados, são considerados justos e não há lugar a regatear. O multibanco também já chegou. E, quando há um feriado em Espanha, os visitantes espanhóis fazem-se notar. 

 

Histórias que viajam 

Se há um símbolo que leva Barcelos pelo mundo, é o galo. Mas, na feira de Barcelos, a tradição não se limita a uma figura colorida. Tem mãos, matéria e histórias que os artesãos continuam a partilhar com quem chega. 

Jorge Lopes tem uma empresa de olaria em Galegos Santa Maria, com cinco funcionários, e às quintas-feiras marca presença na feira. Seguiu o negócio do pai e mantém esta participação como forma de divulgar a casa e mostrar o trabalho que ali se faz. “Continuamos aqui para divulgar a casa e mostrar o nosso trabalho”, assume. 

Os galos continuam a ser “muito procurados, mas outras peças conquistam espaço. Agora também levam muitas andorinhas. Estão na moda”, adianta o feirante, sublinhando que “os ímanes para o frigorífico, pequenasrecordações que cabem na palma da mão, também têm muita procura”. 

Jorge gosta de explicar aos visitantes a lenda do galo e as tradições da olaria. Muitos turistas querem saber mais sobre as peças, a sua origem e o trabalho que lhes dá forma.  

 

“Continuamos aqui para divulgar a casa e mostrar o nosso trabalho. (..) Os galos continuam a ser muito procurados, mas outras peças conquistam espaço. Agora também levam muitas andorinhas. Estão na moda (...) Os ímanes para o frigorífico, pequenas recordações que cabem na palma da mão, também têm muita procura."

 

Na banca de Maria Faria, que trabalha na feira com o marido, a música, também, encontra o seu lugar. Os CD´s convivem com cachecóis, bandeiras, chapéus, t-shirts e toalhas, com Ronaldo e Portugal em destaque. São produtos que atraem emigrantes e turistas, porque há quem procure uma peça de artesanato e quem prefira levar uma recordação ligada ao futebol ou às cores nacionais. “As pessoas gostam sempre de levar uma recordação”, conta. 

 

Café, petisco e o prazer de ficar

A feira acolhe todas as vontades, sem exigir que o visitante escolha entre tradição e atualidade. Depois há aquilo que não se leva num saco. O pregão de quem anuncia os produtos. O cumprimento trocado entre duas pessoas que não se viam desde a semana anterior. A pergunta sobre o preço, a resposta do vendedor e a insistência bem-humorada de quem tenta conseguir mais um desconto. A negociação prolonga-se, entre sorrisos e argumentos, num ritual tão antigo quanto familiar. Há fregueses que percorrem as bancas com uma lista mental muito precisa. Outros deixam-se guiar pelo que encontram. Uns sabem exatamente quanto querem gastar; outros descobrem, pelo caminho, algo que não procuravam.  

A feira permite tudo isso porque não se organiza apenas em torno dos produtos. Organiza-se em torno das pessoas. E há quem faça uma pausa. A Avenida da Liberdade, com as suas muitas esplanadas, oferece um lugar para descansar, beber um café e observar o movimento. É um ritual quase tão familiar como regatear: sentar-se, conversar, ver quem passa e deixar a manhã correr. 

Ali perto, a Rua da Palha chama para um petisco e mais uma pausa, mesmo ao lado do Templo do Senhor Bom Jesus da Cruz, cuja presença acompanha a paisagem e a memória da feira. Entre uma compra e outra, há quem prolongue a visita à mesa, quem encontre conhecidos e quem simplesmente se deixe levar pelo ambiente. 

A Feira de Barcelos é, por isso, muito mais do que um lugar para comprar. É uma enciclopédia viva do concelho, escrita por quem trabalha, cria, vende e regressa. As suas páginas não estão encadernadas: estendem-se pelochão, penduram-se nas bancas, moldam-se em barro e viajam nos sacos de quem parte.  Talvez seja esse o seu maior encanto. Apesar das mudanças, dos anos e das vidas que ficaram pelo caminho, há sempre alguém quevolta a abrir a banca, a alinhar os produtos e a esperar pelo primeiro cliente. 

Maria Isaura tem 85 anos e continua a fazê-lo. Não porque a vida tenha sido sempre fácil, mas porque não se imagina parada. Lucinda continua ao seu lado. Andreia e a irmã mantêm de pé o negócio do pai. Jorge leva aolaria até à feira. Maria Faria prepara as recordações que seguirão viagem. 

Na próxima quinta-feira, a cidade voltará a encher-se. Haverá produtos frescos, peças de artesanato, conversas, encontros e pausas para café. Alguém perguntará por um preço. Alguém tentará negociar. Alguém levará um galo, uma andorinha ou um saco de legumes ou de fruta. E, no meio de tudo isso, continuará a acontecer uma coisa que não se mede em vendas nem se guarda numa fotografia: a vida a passar de mão em mão. Porque háfeiras que se visitam. E há feiras que nos contam quem somos. A de Barcelos faz as duas coisas.