Há uma menina de nove anos em Couto Cambeses, no concelho de Barcelos, que já sabe fazer chapéus de palha. Chama-se Ariana e aprendeu com a avó aquilo que outras mulheres aprenderam antes dela, quando a palha era trabalho, sustento e caminho para as romarias.
Ao lado dela, há mulheres (e alguns homens) que fazem isto há décadas e que conhecem cada fio de palha como quem conhece uma história de família. Há máquinas de costura com mais anos do que algumas das mãos que agora as usam. Há um grupo que, todas as semanas, se junta para provar que algumas memórias não querem ficar quietas no passado.
Há coisas que uma terra não guarda em gavetas. Guarda-as nas mãos. Em Couto Cambeses, no concelho de Barcelos, há histórias que não precisam de ser contadas para serem reconhecidas. Basta olhar para o brasão da freguesia. Num escudo azul, entre três cambas de ouro — pequenas peças de carros de bois ou referências aos antigos engenhos agrícolas — está um chapéu de palha de prata. Não é um adorno escolhido ao acaso. É uma espécie de assinatura. Uma pequena peça de palha transformada em símbolo de uma comunidade e daquilo que, durante muito tempo, fez parte da vida de quem ali nasceu, trabalhou e envelheceu. O chapéu está ali porque, antes de ser património, foi necessidade. Antes de ser tradição, foi trabalho. Antes de ser mostrado, foi usado. E talvez seja precisamente por isso que tenha sobrevivido.
Durante décadas, esta arte foi uma fonte complementar — e por vezes essencial — de rendimento para muitas famílias. As mulheres faziam fita, transformavam a palha e os chapéus seguiam para as romarias, para as feiras, para os campos, para as igrejas. Era trabalho feito entre as tarefas agrícolas, à porta de casa, nas ruas, nos momentos em que as mãos nunca estavam verdadeiramente paradas.
Depois, o tempo mudou. Vieram outros materiais. Outras formas de trabalhar. Outras necessidades. As mãos que sabiam fazer começaram a envelhecer e os chapéus deixaram de ser uma actividade quotidiana. A tradição parecia caminhar para o lugar onde tantas outras tradições acabam: o silêncio. Mas Cambeses não quis que acabasse.
“Nos anos 50 e 60 ainda tínhamos muitas pessoas da freguesia a trabalhar na arte, mas foi-se perdendo. Por isso, atrevi-me a convidar algumas pessoas que ainda sabiam fazer os chapéus de palha para criar o grupo.”
Há um momento, em Cambeses, em que a palha deixa de ser palha. Acontece quando passa pelas mãos de quem conhece o segredo. Quando é separada, escolhida, molhada, entrelaçada, aparada. Quando deixa de ser apenas uma cana seca que nasceu de um campo de centeio e começa a ganhar a forma de uma fita. Depois, chega à máquina. O pé carrega no pedal. A agulha sobe e desce. A palha roda. E aquilo que parecia destinado a desaparecer reaparece diante dos olhos com a forma de um chapéu. É neste movimento — aparentemente simples, mas carregado de memória — que Cambeses continua a contar uma parte da sua história.
A história recente dos ‘Chapéus de Palha’ começa com uma vontade muito concreta: recuperar aquilo que estava a desaparecer. Agostinho Silva, o então presidente da Junta de Freguesia de Cambeses e descendente de chapeleiros, decidiu procurar quem ainda guardava o saber. A iniciativa ganhou forma a partir de 2015 e deu origem ao grupo que haveria de recuperar a produção artesanal e associá-la também às cantigas e memórias populares da freguesia. “Nos anos 50 e 60 ainda tínhamos muitas pessoas da freguesia a trabalhar na arte, mas foi-se perdendo. Por isso, atrevi-me a convidar algumas pessoas que ainda sabiam fazer os chapéus para criar o grupo”, contou Agostinho Silva, neto de Adelino Silva, um dos homens ligados à arte de fazer chapéus de palha.
A ideia não era simplesmente fazer chapéus. Era recuperar uma memória. Talvez por isso o grupo tenha crescido para lá do artesanato. Há chapéus, sim. Há cestas, bases para panelas, abanadores. Há cantigas. Há animações. Há encontros. Há merendas. Há convites de instituições. Há crianças que aparecem nas férias. Há ainda uma palavra que atravessa quase todas as conversas: convívio.
Tradição muito antiga da freguesia.
Joaquina Silva, mais conhecida por Quininha, é uma das pessoas que mantém esta roda em movimento. Tem uma mascote — a boneca Quininha — e fala da tradição com a familiaridade de quem não está a explicar uma coisa estranha, mas simplesmente aquilo que sempre fez parte da sua vida.
“Antigamente era o ganha pão de muitas famílias. O avô do meu marido é que cosia os chapéus. Há 10 anos, o então presidente da junta, que era neto do meu sogro, criou o grupo e aqui estamos”, contou Quininha, enquanto cosia um chapéu.
É quinta-feira. São quase 15h00. As portas da sede de junta abrem-se. Não há cerimónia. Não há solenidade. Há palha. Há máquinas. Há vozes. Há pessoas. E, muitas vezes, comida. “Fazemos chapéus, cestas, abanadores e muito mais. Às vezes fazemos brincadeiras. Outras vezes, fazemos as merendas antigas do campo. Ficamos todos felizes e passamos umas horas espetaculares”, assegura Joaquina Silva. A merenda também é património. “Uns trazem as sardinhas fritas, outros o vinho e alguns os enchidos... e juntamos tudo”, conta.
É impossível separar o artesanato do convívio. Talvez porque, antigamente, também não fosse possível. As mulheres faziam fita enquanto falavam. Trabalhavam enquanto ouviam. Produziam enquanto conviviam. Hoje, o grupo recupera também esse modo de estar. E isso explica, em parte, porque continua vivo. O grupo reúne cerca de 15 elementos. A porta-voz do grupo admite que se tem conseguido atrair os mais novos. Nas férias vão mais vezes, os netos acompanham os avós. “Gostamos muito disto e não queremos que acabe”, pede.
“Fazemos chapéus, cestas, abanadores e muito mais. Às vezes fazemos brincadeiras. Outras vezes, fazemos as merendas antigas do campo. Ficamos todos felizes e passamos umas horas espetaculares (...) Uns trazem as sardinhas fritas, outros o vinho e alguns os enchidos... e juntamos tudo (...) Gostamos muito disto e não queremos que acabe.”
O chapéu começa muito antes da máquina de costura. Começa no campo. Começa no centeio. O processo tradicional implica a utilização da palha de centeio e envolve várias fases até chegar ao objecto final. O grupo recuperou esse processo, incluindo a própria cultura do cereal, para que o conhecimento não fique reduzido à parte final da confecção. É preciso semear. Esperar. Cortar. Recolher. Secar. Depois, a palha é escolhida. Separam-se as partes que não servem. Selecciona-se aquilo que será transformado. A palha pode ser branqueada, separada por espessura e preparada para ser trabalhada. Depois começa uma das tarefas mais demoradas: fazer a fita.
O grupo também tem levado a arte para fora. Participa em iniciativas de artesanato, realiza workshops, vai a escolas e instituições, participa em momentos festivos e apresenta a tradição em diferentes contextos. Registos da actividade do grupo mostram, desde os primeiros anos, workshops na Mostra de Artesanato de Barcelos, actividades com escolas, actuações e momentos ligados à cultura do centeio.
Esta podia ser apenas uma descrição de actividades. Mas não é. Porque, entre uma frase e outra, percebe-se que o verdadeiro produto daquele grupo não é o chapéu. São as horas. As horas passadas juntos. As horas que, numa sociedade onde tanta coisa acontece depressa, aquelas mulheres e homens decidiram continuar a gastar devagar.
“Já faço de olhos fechados”
Rosalina Vieira da Costa tem 85 anos. É de Couto de Cambeses e carrega consigo uma aprendizagem que começou muito antes de existir o grupo. É das mais velhas do grupo. “Enquanto posso, participo. Em pequena a minha mãe ensinou-me. Já faço de olhos fechados”, diz, sem tirar os olhos da palha. Ensinar diz que é fácil. “Basta estar para aí virada”, assegura.
Filha da chapeleira Carolina Vieira, Rosalina tinha mais oito irmãos. “Vivíamos dos chapéus. O pai trabalhava nos caminhos de ferro e quando chegava a casa vinha ver o que tínhamos feito. Eu trabalhava a fita com os meus irmãos, a mãe é que os cosia. Depois ia com a mãe vender os chapéus para as feiras e romarias”, lembra, enquanto o trabalho flui.
Rosalina não aprendeu apenas a fazer chapéus. Aprendeu a pertencer a uma história. A mãe fazia. Os irmãos ajudavam. O pai trabalhava nos caminhos de ferro e, quando chegava, queria saber o que tinha sido feito. Depois os chapéus seguiam para as romarias. Era assim que uma família inteira participava numa actividade. Era assim que uma freguesia sobrevivia.
Depois aparece Ariana. Tem nove anos. A diferença entre ela e Rosalina é de 76 anos. Entre as duas cabe quase uma vida inteira de mudanças. Mas há uma coisa que as aproxima: a palha. Ariana Araújo chega ao grupo através da avó, Maria Araújo Campos. A avó, que é natural de Negreiros, mas foi viver para Cambeses há 50 anos, foi convidada a participar no grupo. Há 10 anos. A neta vai nas férias.“Tem sido uma aventura. Gosto do convívio e de sentir que estamos a preservar a tradição”, confidencia a avó Maria, mostrando orgulho ao estar a manter a tradição da família, da aldeia. Logo de seguida, Ariana atira: “foi fácil aprender e até já sou capaz de ensinar a fazer”. É talvez aqui que a história dos ‘Chapéus de Palha’ ganha a sua imagem mais poderosa. Uma menina de nove anos a aprender uma arte que já sustentou famílias. Não porque alguém lhe tenha dito que tem de o fazer. Mas porque foi atrás da avó.
Os nomes mudam. As gerações passam. Mas a técnica fica. Ou pode ficar. Porque há sempre um momento em que uma tradição depende de uma escolha. Alguém tem de decidir que vale a pena ensinar. Alguém tem de parar e dizer: “vem cá, olha como se faz”. Foi isso que aconteceu em Cambeses.
O que a história conta.
O historiador Joaquim da Silva Gomes descreve precisamente essa dimensão da tradição: “durante o século XIX e sobretudo na primeira metade do século XX, muitas mulheres da freguesia transformavam a palha em tranças e, posteriormente, em chapéus, numa atividade que se somava à agricultura e contribuía para o orçamento das famílias. Havia várias formas de entrelaçar a palha, nomeadamente os trancelins, as rendilhas, as escumilhas, as tocas e até as peixeiras”.
O aproveitamento era levado ao limite, acrescenta o historiador. “As mais grossas eram utilizadas para fazer palhinhas que eram vendidas para cafés de Braga e do Porto. A memória dessas viagens ficou associada às imagens das mulheres que seguiam de comboio com os cestos de palhinhas. Hoje, as palhinhas de centeio já não são uma atividade económica de massa. Foram substituídas por outros materiais”, acrescenta. Mas o conhecimento permanece. E é precisamente esse conhecimento que o grupo tenta impedir que desapareça.
“Tudo começou com o anterior executivo, mas claro que continuamos a dar todo o apoio necessário (...) A vereadora da Cultura de Nantes tem família em Cambeses. Já tivemos uma primeira reunião e o objetivo é levar os chapéus de palha para La Remaudière (...) será muito bom levar a tradição além-fronteiras.”
O historiador lembra ainda que a importância desta atividade ultrapassou as fronteiras da freguesia. “A afirmação desta arte de trabalhar a palha e os chapéus de palha nesta freguesia teve o seu epicentro na Exposição do Mundo Português, em Lisboa, em junho de 1940, quando ali marcaram presença uma senhora e duas raparigas da freguesia, para mostrar ao país a arte de bem fazer estes chapéus”, explica. A presença na exposição de 1940 mostra que o saber de Cambeses já era reconhecido muito para lá da comunidade.
Joaquim da Silva Gomes recupera também nomes de quem dedicou grande parte da vida à atividade. “Adelino Ribeiro da Silva, que nasceu em 1911, e Rosa Faria Ribeiro, que nasceu em 1915, foram um dos casais de chapeleiros que mais se dedicou a esta arte. Também Maria Dolores Martins da Silva dedicou uma grande parte da sua vida aos chapéus de palha, que aprendeu com o seu marido, António Ribeiro da Silva, também ele filho de um chapeleiro”, revela.
Levar a tradição para França.
O atual presidente da Junta de Freguesia de Cambeses, Sérgio Paulo Pinto, garante que o grupo é para continuar. “Tudo começou com o anterior executivo, mas claro que continuamos a dar todo o apoio necessário”, assegura.
Entretanto, até há uma nova possibilidade no horizonte. A freguesia está a dar os primeiros passos num protocolo de geminação com uma freguesia de Nantes, em França.
“A vereadora da Cultura de Nantes tem família em Cambeses. Já tivemos uma primeira reunião e o objetivo é levar os chapéus de palha para La Remaudière”, anuncia Paulo Pinto, considerando que será “muito bom levar a tradição além-fronteiras”.
A palha que nasceu nos campos de Cambeses pode agora atravessar fronteiras. Mas, antes disso, precisou de sobreviver dentro da própria terra. O brasão já sabia. Além do brasão, outra pista da importância desta arte para Cambeses está numa rotunda da freguesia, onde um grande chapéu de palha ocupa o centro. A própria Câmara Municipal de Barcelos continua a apresentar os chapéus de palha de Cambeses como uma das artes tradicionais do concelho e tem integrado demonstrações e workshops desta técnica em iniciativas dedicadas ao artesanato.
Há uma frase de Joaquina Silva que podia ser colocada à entrada da sala onde o grupo se reúne. “Gostamos muito disto e não queremos que acabe.” Não há melhor manifesto. Porque a preservação de uma tradição raramente acontece apenas por obrigação. Acontece por afecto. Por orgulho. Por pertença. Por saudade. Por prazer. E, sobretudo, porque alguém percebe que perder uma técnica também pode significar perder uma parte da história de uma comunidade.
Enquanto a palha se transforma, as palavras atravessam gerações. Talvez seja por isso que este grupo seja mais do que um grupo de artesanato. É um grupo de memória. Uma espécie de arquivo vivo. Não guarda documentos dentro de caixas. Guarda gestos. Guarda receitas. Guarda cantigas. Guarda histórias de famílias. Guarda nomes. Guarda maneiras de fazer. Guarda até a forma de uma merenda. E, sobretudo, guarda tempo.
O chapéu parece leve. Mas carrega muito. Carrega uma terra. Carrega uma profissão. Carrega uma economia que já não existe. Carrega mulheres que trabalharam para ajudar as suas famílias. Carrega homens que aprenderam a coser. Carrega crianças que agora aprendem. Carrega o orgulho de uma freguesia que decidiu não deixar morrer aquilo que a distinguia. Talvez seja essa a razão pela qual o chapéu aparece no brasão de Cambeses. Não apenas porque ali se fabricavam chapéus. Mas porque ali se fabricou uma maneira de viver.
Talvez seja também por isso que, todas as quintas-feiras, por volta das 15h00, quando a palha volta a espalhar-se sobre as mesas e as máquinas começam novamente a trabalhar, ninguém esteja simplesmente a fazer artesanato. Estão a fazer memória. Estão a fazer comunidade. Estão a fazer futuro. E, sem darem por isso, estão a responder ao tempo. Com as mãos. Com palha. Com histórias. Com uma menina de nove anos. Com uma mulher de 85. Com a certeza tranquila de quem sabe que algumas coisas não se deixam morrer.
Em Cambeses, um chapéu ainda nasce de um campo. Mas, antes de chegar à cabeça de alguém, passa pelo coração de uma comunidade.




