O conceito não é novo no mundo, mas passou a ser novidade em Braga. Desde há meia dúzia de meses que existe o ‘Silent Book Club Braga’, cujo rosto é Maria Santos, uma jovem bracarense de 22 anos, introvertida, que decidiu avançar com uma ideia importada dos Estados Unidos (São Francisco), em 2012, selada na mente de duas amigas – Guinevere de la Mare e Laura Gluhanich – que tinham o encanto pela leitura, mas não encontravam prazer nos formatos comuns existentes em clubes do livro.
Acompanhámos o último encontro, realizado num espaço comercial da cidade, onde observámos o valor do silêncio estendido por duas dezenas de jovens. O projeto “está em crescendo”, garante a organizadora. A prova está nas inscrições que já superam as melhores expetativas. Para já, o convite é mensal. Um círculo de amantes da leitura, sem obrigações para falar nem partilhar. Apenas estar.
Há uma inscrição prévia na página do Instagram. Segue-se a confirmação ou não. Tudo porque a adesão tem crescido a um ritmo que surpreendeu a própria Maria Santos, organizadora desta iniciativa: “temos feito com 20 a 30 pessoas. Esta sessão tivemos 50 inscrições. Foi um ‘boom’. Não estava à espera. Tivemos de recusar. Isto obriga-me a adaptar os espaços para abranger mais pessoas. Talvez, no futuro, fazer duas sessões por mês.”
PORTO INSPIRADOR
Estudante de Design Gráfico e licenciada em Design de Produto na Universidade do Minho, Maria Santos esclarece que nunca foi uma leitora assídua até há pouco mais de um ano: “a leitura para mim é quase uma meditação. É um tempo que tiro para mim, para desconectar e abrandar”, explica. Foi esse hábito recente, aliado ao contacto com conteúdos literários nas redes sociais, que a levou a descobrir o conceito do ‘Silent Book Club’ no Porto. A experiência ficou-lhe na memória: “achei que fazia todo o sentido existir uma comunidade em Braga. Sempre senti que muitos eventos ligados à arte e à leitura aconteciam no Porto e que aqui havia espaço para algo novo”, revela.
A sugestão de criar um núcleo na cidade acabou por partir das próprias organizadoras do clube portuense (Margarida Silva e Iris Scherer). E assim foi. Entre agosto e setembro, tomou a decisão e, a 26 de outubro último, realizou a primeira sessão.
“PUXOU POR MIM”
O facto de ser pouco sociável fez com que quisesse arriscar em fazer diferente: “isto puxou por mim. Gostaria que, acima de tudo, fosse um espaço de pertença, onde as pessoas sentissem que têm ali um refúgio, um sítio acolhedor. Um lugar onde podem estar, sem pressão, e partilhar — mesmo que seja em silêncio.”
As sessões começam com cerca de 30 minutos de chegada e adaptação. Depois, uma hora de leitura silenciosa. No final, há espaço para conversar, mas apenas para quem quiser. “Tira-se completamente a pressão de falar. Há pessoas que gostam de partilhar, outras preferem só ler, e está tudo certo”, explica Maria Santos. “Acho que isso faz com que pessoas mais introvertidas também se sintam confortáveis.”
Tudo pode aparecer: livros, e-books, audiolivros, livros didáticos, BD e muito mais.
Importante é que a comunidade está em crescendo: “se na primeira sessão participaram cinco ou seis pessoas, hoje o número ronda as 20. E há já lista de espera em algumas datas. O público é variado, tanto em idades como em interesses. Embora a maioria esteja na faixa dos 20 aos 30 anos, há participantes mais velhos e leitores de todos os géneros, da fantasia ao romance contemporâneo, passando por ensaio e não-ficção. Tenho recebido muito feedback positivo. As pessoas agradecem a iniciativa e voltam. Já começo a reconhecer nomes”.
“TEM VALIDO A PENA”
Afável e doce, Maria Santos acredita que está perante uma aposta de sucesso. Não só para quem participa como também para ela própria: “está a valer a pena porque estou a conhecer mais a cidade. Tinha ideia de que só no Porto poderia haver algo do género, o que não é verdade. Braga tem estabelecimentos comerciais interessados. Sinto que aprendo sempre algo mais”. O que mais surpreende? “As pessoas e o que elas partilham. Os livros dizem muito de como é a pessoa, como olha o mundo”.
RAIZ AMERICANA
Foi em 2012 que nasceu o primeiro ‘Silent Book Club’. Aconteceu em São Francisco pelas mãos de duas amigas, Guinevere de la Mare e Laura Gluhanich, que partilhavam o gosto pela leitura, mas estavam cansadas dos formatos tradicionais de clubes do livro. Entre agendas apertadas, livros obrigatórios e a pressão para ter sempre algo “inteligente” a dizer, decidiram fazer o oposto: criar um encontro onde pudessem simplesmente ler, sem regras.
O que começou como um hábito informal num bar de bairro cresceu rapidamente e transformou-se num movimento global, com milhares de comunidades em mais de 60 países. Ali não há leituras obrigatórias, cada participante leva o livro que quiser e lê em silêncio, num ambiente partilhado.
Em suma, embora a matriz seja comunitária, estamos perante um evento solitário, de introspeção, de foco, onde dizemos sim ao livro e dizemos não a milhares de outras coisas que podem ficar para depois.




