Instalada no Largo da Matriz em Ponte de Lima. Um ‘buffet’ para amantes de livros, irresistível para quem já ouviu falar e não conhece, e espanto para todo aquele que entra e sai. Quase a completar três anos, esta inusitada ideia não tem funcionários nem caixa registadora. Se quer levar um livro, basta sair e pagar a um dos negócios vizinhos. Com mais de 50 anos, Manuel Pimenta é o homem que concebeu esta curiosa forma de prestar tributo à palavra.

A famosa ponte romana que atravessa o Rio Lima é um ‘cartão-postal’ de Ponte de Lima, a mais antiga vila de Portugal – recebeu foral, em 1125, por D. Teresa, a mãe do primeiro Rei de Portugal, antes ainda da fundação do reino – mas há outros que fazem desta terra minhota um santuário arquitetónico, cultural e gastronómico. Basta lembrar o afamado ‘vinho verde’, os imponentes solares e casas apalaçadas, tradições como ‘A Vaca das Cordas’ e as ‘Feiras Novas’. Porém, desde novembro de 2023 que há uma outra atração turística que está a provocar um crescente número de curiosos em torno de um conceito cultural com o nome ‘Livrearia’, projetada pelos amigos arquitetos Paulo Afonso e Joana Nunes e pela designer Madalena Martins. Tem um ar singelo ao ocupar o rés-do-chão de um edifício antigo. As janelas do apartamento do primeiro andar têm vista para o interior e é nessa espécie de claraboia que está pendurado o livro de reclamações. O branco que cobre o cimento das paredes e os candeeiros suspensos no teto realçam as estantes e “enchem de luz” os livros escolhidos por “pura intuição”, sem terem uma apresentação massificada.

VOAR NOS LIVROS

Antes de entrarmos temos uma nota poética que desenha o retrato do que podemos observar dentro do espaço: “comece por desapertar o cinto que o prende à terra e sinta-se convidado a voar para dentro dos livros. Caso se apaixone por algum, mantenha a calma e agarre-se bem a ele. Depois dirija-se a um dos comércios vizinhos para tratar das formalidades. Poderá fazê-lo na padaria ao lado, no pronto-a-vestir, duas casas à esquerda ou, na farmácia, também situada neste apolíneo largo”.

O proprietário, Manuel Pimenta, 51 anos, explica: “a interação com os vizinhos, onde é feito pagamento dos livros, flui naturalmente. É como quando emprestamos uma coisa ou avisamos que o rio (Lima) está cheio. Desde o tempo do meu avô que é um largo muito solidário. É a nossa natureza minhota, nortenha, portuguesa, com certeza”.

OBRAS DE ARTE A 5 EUROS

O ninho da ‘Livrearia’, outrora espaço de venda de bicicletas e churrasqueira, foi herdado do avô paterno. Ainda houve tentação para um novo arrendamento, mas o “bichinho” já esgravatava no interior do corpo do neto: “há muitos anos que andava com esta ideia dentro de mim. Sei que isto dificilmente seria possível numa cidade grande. Isto é um negócio de uma vila onde as pessoas interagem de forma muito próxima, que recebe muita gente de fora que tem acarinhado muito a ideia, porque acham que é uma boa forma de valorizar o livro”.

Os livros, em segunda mão, grande parte doados, são todos numerados e personalizados com a marca do espaço. Estas “obras de arte” podem ser adquiridas, como explica o letreiro da entrada, por “dez euros para quem for excêntrico ou tiver perdido o juízo, cinco euros para o cidadão comum e gratuito para quem tiver o triste prazer de roubar sem necessidade”.

“VEJO JOVENS QUE VÊM PARA AQUI… NAMORAR”

Com perto de 5.000 livros catalogados, Manuel Pimenta, licenciado em Farmácia, vai rodando consoante a procura. Chegam de todo o país. Faz questão de esclarecer que não é livreiro, antes um homem que tem “gosto pelos livros”. Bem diferente do pai que lia de forma compulsiva. Esta aposta, partilha, “permite-me fazer amigos” e ter “clientes já fidelizados”.

Não obstante, há de tudo um pouco. Miúdos e graúdos. Confessa ter tido “muita sorte” em alcançar esta reação do público: “tenho até guias turísticos que passam por aqui. Sinto-me incentivado em ver miúdos a ler em inglês e saber que há malta a ler quatro livros por semana. Tudo isto faz-me sentir bem, que estou a contribuir para a promoção da palavra”.

A par destas ‘conquistas’, há outras observações curiosas: “como pode ver, é um espaço acolhedor. Tem lugares para nos sentarmos. Por vezes, vejo jovens que vêm para aqui… namorar (risos)”.

“ISTO É O MEU FERRARI”

A vizinhança é do melhor, avança Manuel Pimenta: “há uma senhora que me limpa o espaço sem lhe pedir e ainda me faz arranjos de flores. Claro que estes gestos me incentivam a continuar. Eu não sou de carros, por isso é que digo que isto é o meu Ferrari”.

Como complemento, gosta de arte daí que tenha transformado a ‘Livrearia’ num lugar cultural, onde, além dos livros, haja zona para alguns concertos, declamação de poesia, entre outras performances. É com o dinheiro angariado na venda de livros que realiza, uma vez por mês, eventos artísticos. Um dos nomes que mais tem ajudado é a amiga Ana Deus, vocalista da banda portuense Três Tristes Tigres. Outros também já pisaram este inigualável pouso cultural como Álvaro Costa. Ao todo, dezenas de conversas que prometem fazer da ‘Livrearia’ um local de culto no Norte do país. Até 2822!