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LITERATURA


               Universidade Católica promoveu conferência dedicada ao escritor Eça de Queirós
               OBRA OS MAIAS É “UMA VISÃO CRÍTICA


               DO PORTUGAL DE OITOCENTOS” COM AMPLAS


               DESCRIÇÕES “GRÁVIDAS DE SENTIDO”


              E          ça de Queirós, Os Maias: pensar criticamente Portugal foi   o Ramalhete. É já na capital, e com o consultório médico instalado, que a
               TEXTO: Marta Amaral Caldeira e Mariana Silva

                                                                       personagem principal (Carlos da Maia) conhece Maria Eduarda com quem
                         o título de uma tertúlia realizada, recentemente, na Biblio-
                                                                       irá desenvolver um caso insólito de incesto, descobrindo que afinal era sua
                         teca Padre Júlio Fragata, na Universidade Católica Portu-
                                                                       irmã.
                         guesa – Centro Regional de Braga. Fabrizia Raguso, do-
                         cente de Psicologia, e Cândido Oliveira Martins, docente
                         de Literatura, foram os conferencistas desta iniciativa que   “A voz narrativa incide desde a vida política à vida financeira e social que
               visou dar a conhecer um pouco mais da vida e obra do escritor.   se vive na época oitocentista, mas no cerne de tudo está um casal jovem
                                                                       que não fazia ideia que havia sido separado em criança e os dois vêm ter a
               O evento pretendeu assinalar o facto de o ano de 2025 ter celebrado a pas-  Lisboa, à mesma casa e à mesma cama. O certo é que Carlos da Maia, é o
               sagem dos 180 anos do nascimento do escritor português José Maria Eça   único que comete incesto de forma consciente depois de saber a verdade
               de Queirós, nascido em 1845, e os 130 anos da publicação original do gran-  pelo amigo João da Ega.”
               de romance do escritor – Os Maias.
                                                                       Fabrizia Raguso, docente de Psicologia, acrescentou, complementarmen-
               Sob a perspetiva literária, Cândido de Oliveira Martins informou a plateia   te, uma perspetiva psicosociológica, abordando a influência da infância de
               que João Gaspar Simões foi o primeiro crítico literário que escreveu uma   Eça na construção das suas personagens e na intensidade psicológica da
               biografia de Eça, abordando temas desde o nascimento, abandono e da re-  narrativa. Recorde-se que Eça viveu os primeiros anos da sua vida numa
               lação complexa com a sua mãe. Um outro crítico, Jorge de Sena, considera   zona rural, até cerca dos seis ou sete anos, e depois cresceu com os avós
               que Simões leu Eça com um “palito freudiano”, frisando a impossibilidade   paternos em Aveiro.
               de se explicar a obra a partir de um ponto de vista determinista.
                                                                       A responsável explicou que este romance de Eça de Queirós se integra na
               “A obra Os Maias é, além de uma história familiar, uma visão crítica do Por-  área da psicologia da família, ao considerar que se trata “da experiência de
               tugal de fim de século XIX”, realçou o professor de literatura, que relatou   um indivíduo encaixotada numa história que se projeta para o futuro”.
               alguns episódios da vida de Eça de Queirós, nascido em 1845, na Póvoa de
               Varzim e falecido em 1900, em Paris, França. Uma dos aspetos curiosos do   A psicóloga sublinhou que estas experiências na infância moldaram a for-
               escritor, era o facto de ele, ao corrigir as provas, praticamente reescrever o   ma como Eça retrata os vínculos familiares em Os Maias. “A relação entre
               romance. “Na verdade, Eça passou quase dez anos a pensar e a escrever   Carlos  da  Maia  e  Maria  Eduarda,  marcada  por  uma  atração  inevitável  e
               Os Maias porque queria que este romance fosse uma grande catedral. De   trágica, pode ser entendida como um reencontro com as próprias raízes:
               facto, as descrições que são uma dor de cabeça, sobretudo para os adoles-  apesar do conhecimento da verdade sobre o parentesco, existe uma força
               centes, estão grávidas de sentido.”                     que os liga e os conduz”.
                                                                       De acordo com a responsável, “a leitura escolar de grandes clássicos como
               O romance de Eça de Queirós começa no presente, seguindo-se uma lon-
               ga analepse, retomando depois o ritmo de novela, muito acelerado, para   Os Maias mata, muitas vezes, estas obras porque as transforma em matéria
               nos relatar as três gerações da família de Carlos. Depois de um Grand Tour   de estudo e, a verdade, é que vivemos hoje numa época em que não conse-
               (uma grande viagem pela Europa), Carlos da Maia, o protagonista do enre-  guimos fazer grandes perguntas”, lamenta. Seja como for, “é necessário re-
               do, diz ao avô que quer retomar a vida em Lisboa, na antiga casa de família,   tomar estas leituras para redescobrirmos, enquanto adultos, obras que são
                                                                       ernomes de forma a encontrarmos nelas um elemento novo para reflexão”.































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