Este evento teve por fim a comemoração dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo e contou com momentos como a Procissão do Senhor Ecce Homo, Procissão da Nossa Senhora da “burrinha” e a Procissão dos Passos. Houve, também, animações, concertos e espetáculos. Uns dos principais ícones deste evento foram os Farricocos, figuras vestidas de negro que andam descalças e mostram apenas os olhos.
Páscoa em Braga é sinónimo de milhares de fiéis em torno de uma tradição que percorre séculos. Portugueses e espanhóis são o grosso do público. A programação é variada e para todos os gostos. Não são apenas as seculares procissões dos Passos (1597) e do Senhor Ecce Homo (1513), completadas nas últimas décadas pela Procissão do Enterro do Senhor (1933) e pela renovada Procissão da Burrinha (1998), que perfazem a imponência da quadra.
As ruas vestem-se de roxo e perfumam-se de incenso, tal como os principais templos que continuam a centralizar o exercício de práticas seculares. Na Sé Primaz decorreram as principais celebrações segundo o pendor de um costume litúrgico que reivindica identidade.
PROCISSÃO DOS PASSOS
A Procissão dos Passos, organizada anualmente no ‘Domingo de Ramos’ pela Irmandade de Santa Cruz, foi o primeiro grande evento da ‘Semana Santa’ em Braga. Instituída em 1597 pelo Arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus, é provavelmente a segunda procissão mais antiga de Portugal. O objetivo da procissão foi recriar o caminho de Jesus Cristo, desde o Pretório até ao Calvário, seguindo ainda hoje o itinerário dos Passos (calvários) no centro histórico de Braga.
O ponto alto da procissão ocorreu no largo Carlos Amarante, em frente à igreja de Santa Cruz, onde se realizou o sermão do Encontro, um momento de catequese e devoção introduzido em 1946. Após esta encenação, a procissão continuou com o andor de Nossa Senhora da Soledade. Antigamente, a procissão era precedida por grupos de farricocos, vestidos de túnicas roxas, e penitentes que se flagelavam publicamente. Em memória dessas figuras, a procissão foi aberta por um farricoco tocando trompeta. Junto à igreja de Santa Cruz, durante o Sermão do Encontro, os participantes tiveram oportunidade de assistir ao emocionante encontro de Jesus com a sua Mãe Dolorosa, a “Senhora da Soledade”. A frente da procissão foi composta pelos guiões das Irmandades dos Passos do Arciprestado de Braga.
PROCISSÃO DE NOSSA SENHORA DA BURRINHA
A Procissão da Senhora da “burrinha”, oficialmente chamada “Vós sereis o meu povo”, foi organizada pela Junta de Freguesia e pela Paróquia de São Victor. Esta procissão tem origem na de Nossa Senhora das Angústias, que era tradicional na freguesia desde o século XVIII e incluía uma imagem de Nossa Senhora montada numa burrinha, tornando-a uma das mais populares em Braga. Inicialmente realizada no primeiro domingo de julho, foi integrada na Semana Santa em 1960 e aconteceu até 1973. A procissão foi retomada em 1998, afastando-se da devoção das Dores de Maria e focando-se na história da Salvação, desde Abraão até Jesus Cristo.
Um dos últimos momentos da procissão repete a tradicional Fugida para o Egito, com a imagem de Nossa Senhora da “burrinha”, que é a mais apreciada pelo público.
PROCISSÃO ‘ECCE HOMO’
A Procissão do Senhor da Cana Verde, também conhecida como a procissão dos Fogaréus, é uma das manifestações mais importantes da Semana Santa em Braga. Ela evoca o julgamento de Cristo, quando Pilatos proclamou “Eis o Homem” (‘Ecce Homo’ em latim), nome dado à imagem transportada durante o evento. A origem da procissão remonta às práticas devocionais das Misericórdias, que, no dia da “desobriga”, organizavam um cortejo de penitentes que percorria as ruas em oração e lamento. A procissão mantém o simbolismo das trevas, apelando ao arrependimento pelos pecados.
Os farricocos (ou fogaréus), que ainda fazem parte do cortejo, representam os penitentes que marcaram esta tradição ao longo dos séculos. Além de figuras alegóricas da Ceia e do julgamento de Jesus, desde 2004 são também incluídas alegorias das catorze obras de misericórdia e figuras históricas ligadas às Misericórdias, especialmente à de Braga. Nos últimos anos, delegações de Misericórdias de várias partes do país também participam na procissão.
PROCISSÃO DO ENTERRO DO SENHOR
A Procissão do Enterro do Senhor foi a manifestação mais imponente e solene da ‘Semana Santa’ em Braga. Com origem nas práticas da Irmandade de Santa Cruz no século XVII, a procissão foi oficialmente estabelecida em 1933, após a criação da Comissão da Semana Santa, no contexto do jubileu do Ano Santo da Redenção. Organizada pelo Cabido da Sé, Comissão da Semana Santa, Irmandade de Santa Cruz e Irmandade da Misericórdia, ela simboliza a morte e deposição de Jesus Cristo. Semelhante a um cortejo fúnebre, a procissão transporta uma urna com a imagem de Cristo morto, acompanhada pelo andor de Nossa Senhora da Soledade. A procissão começa com o andor ‘Consummatum Est’, introduzido em 2017. Durante o percurso, participam outras irmandades, corporações, capitulares da Sé e autoridades civis e militares. Em sinal de luto, os participantes cobrem a cabeça com um véu de luto, enquanto as matracas dos farricocos são silenciadas e as bandeiras e estandartes, com tarja de luto, arrastam-se pelo chão.
“TEMPO MAIOR DA NOSSA CIDADE”
João Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Braga, marcou presença nos vários momentos do programa da ‘Semana Santa’ de Braga. O autarca sublinhou a importância deste período “como um dos momentos mais marcantes da identidade coletiva da cidade”. Para o líder do município bracarense “a Semana Santa de Braga é um tempo maior da nossa cidade: de fé para muitos, de comunidade para todos, e de património vivido que nos define”.
O edil destacou que a Semana Santa de Braga se afirma pela conjugação singular entre a dimensão religiosa e uma programação cultural de qualidade, desenvolvida desde o início da Quaresma, reforçando a vivência comunitária, a valorização do património e a projeção externa de Braga: “uma tradição não tem de ser um peso que se arrasta. Pelo contrário: temos a obrigação de a cuidar, de a fomentar e de a tornar maior, com rigor, com dignidade e com ambição para Braga”. O presidente da Câmara deixou ainda uma palavra de reconhecimento à Comissão da Quaresma e Solenidades da Semana Santa de Braga, ao Cabido, às Irmandades, à Santa Casa da Misericórdia e às restantes entidades envolvidas, bem como a voluntários e equipas técnicas que asseguraram a realização das iniciativas.
DINÂMICA TURÍSTICA E ECONÓMICA
João Rodrigues salientou, também, o impacto positivo da ‘Semana Santa’ na dinâmica turística e na economia local, pela capacidade de atrair visitantes e de reforçar a imagem de Braga como cidade de cultura, património e acolhimento. Por fim, reiterou o compromisso do Município de Braga em garantir as condições necessárias no espaço público, em articulação com as entidades competentes, para que o programa tenha decorrido com segurança, organização e respeito.


