Seis décadas depois de ajudar a mudar a história do rock, John Steel continua a fazer aquilo que sempre o moveu: subir ao palco e tocar com paixão. O baterista fundador dos The Animals, banda que eternizou ‘The House of the Rising Sun’, regressou a Braga para atuar no ‘Nova Arcada Braga Blues’ com a energia de quem sabe que há canções que não pertencem apenas a uma época. Em conversa com Micha Rud, recordou os dias em que tudo começou e explica por que é que estes clássicos da lendária banda britânica continuam a falar de nós.
Micha - John, é um prazer ter-te aqui. Já estás na banda há alguns anos, não é?
John Steel - Mais do que alguns! Muito mais do que alguns. [risos]
Micha - Conheceste o Eric Burdon no Newcastle College of Art e, antes de te dedicares à bateria, tocavas trompete. Foi assim que tudo começou?
John - Exatamente. Foi nessa altura que nos conhecemos. E sim, comecei por tocar trompete antes de passar para a bateria.
Micha - Quando começaram a tocar nos clubes de Inglaterra, imaginavas que os The Animals poderiam vir a fazer parte de um movimento musical tão importante como a invasãobritânica?
John - Não foi logo no início que percebemos isso. Acho que só alguns anos mais tarde, sobretudo com a chegada dos Beatles, em 1962, é que as pessoas começaram a sentir que estava aacontecer algo novo. Mas, na verdade, não era assim tão novo. Os Beatles, os Rolling Stones, os Animals e as outras bandas crescemos a ouvir as mesmas influências americanas dos anos 50: Little Richard, Fats Domino, Elvis Presley, Chuck Berry… todos aqueles artistas que nos inspiravam.
Micha - A diferença é que vocês deixaram de querer apenas ouvir aqueles discos. Queriam fazer aquela música.
John - Exatamente! Em vez de sermos apenas fãs a ouvir os discos, queríamos tocá-los. Queríamos fazer aquilo.
Micha - E depois chegou ‘The House of the Rising Sun’. Uma canção que ficou para a história e que, segundo se conta, foi gravada numa única tomada.
John - Sim, foi gravada numa única tomada, nos estúdios De Lane Lea. Na altura, estávamos contratados pela EMI, não pela Decca. Era apenas o nosso segundo single. O primeiro tinha sido‘Baby, Let Me Take You Home’, que teve algum sucesso e nos ajudou a chegar à rádio e à televisão. Não foi um êxito enorme, mas esteve bastante tempo no top 20 e abriu-nos portas.
Micha - Mas foi ‘The House of the Rising Sun’ que mudou tudo. Quando percebeste que aquela canção podia fazer história?
John - Quando começámos a tocá-la na digressão com Chuck Berry. Tínhamos conhecido a cena musical de Londres depois de sairmos de Newcastle e fomos descobertos por Peter Grant, que mais tarde viria a ser empresário dos Led Zeppelin. Na altura, trabalhava na agência de Don Arden, que nos contratou. No final de 1963, começámos a fazer digressões a sério. Don Arden conseguiu trazer Chuck Berry ao Reino Unido para uma digressão de três semanas, com várias bandas, incluindo Carl Perkins, que escreveu Blue Suede Shoes. Foi uma grande oportunidade. Pela primeira vez, estávamos a tocar para salas esgotadas, em verdadeiros teatros.
Micha - E foi nesse contexto que perceberam que tinham algo especial nas mãos?
John - Sim. Conhecíamos ‘The House of the Rising Sun’ do primeiro álbum de Bob Dylan, numa versão folk acústica. Mudámos o arranjo e também a letra. Chas Chandler, o nosso baixista, que mais tarde viria a ser empresário de Jimi Hendrix, tinha uma grande cabeça para os negócios. Disse-nos que, numa digressão em que todos iam tocar rock and roll, aquela canção seria diferente e iria destacar-se. E tinha razão. Assim que começámos a tocá-la na digressão, as salas estavam esgotadas noite após noite. Percebemos que havia ali qualquer coisa de especial.
Micha - E o que é que mantém os The Animals vivos hoje, sem transformar os concertos numa simples viagem nostálgica aos anos 60?
John - Há muitas bandas de tributo, mas as canções que gravámos nunca foram propriamente pop convencional. Gosto de lhes chamar pop para adultos. São músicas que têm outraprofundidade. A banda que temos hoje é excelente. O Barney e o Danny são músicos extraordinários, e o Danny é também um cantor brilhante. Procuramos oferecer um espetáculo ao vivo forte, entusiasmante, sem fazer sempre exatamente a mesma coisa. Não queremos que isto se transforme num número de cabaré. Há espaço para o blues, para o jazz, para diferentesabordagens. Mas, sim, estes são The Animals.
Micha - E como consegues manter a energia de canções como ‘We've Gotta Get Out of This Place’, ‘It's My Life’ ou ‘Don't Let Me Be Misunderstood’, noite após noite, passados tantos anos?
John — Acho que o segredo está na força das próprias canções. São histórias sobre a vida, com as quais as pessoas continuam a identificar-se. Não são apenas músicas pop para cantarolar. [risos]
Micha - São canções reais.
John - Exatamente. E continuamos a tocá-las com paixão, porque gostamos mesmo delas. O público percebe quando estamos verdadeiramente envolvidos naquilo que fazemos. Não estamosali simplesmente sentados a tocar as músicas. Entregamo-las com paixão, e as pessoas sentem isso.
Micha - E voltar a Braga, reencontrar estes fãs e subir novamente ao palco perante este público? O que significa para ti?
John - É sempre um prazer. Temos tido uma ótima reação em Braga. As pessoas respondem muito bem à nossa música, e isso alimenta-nos. É uma troca: nós damos ao público e o públicodá-nos de volta. Alimentamo-nos uns aos outros.




