Há fotografias que registam lugares. Outras conseguem registar aquilo que é mais difícil de ver: a sensação de pertencer a dois lugares ao mesmo tempo.

É nesse território que se constrói “Pomizh – in-between”, o projeto da fotógrafa ucraniana Lena Ruzhytska, distinguido com o Prémio Encontros da Imagem 2026, atribuído em Braga.

A viver em Portugal desde o final de 2023, Lena mantém uma ligação inevitável à Ucrânia, onde continua a viver parte da sua família. Desde que se mudou, regressou ao país três vezes e foi desse movimento entre uma nova vida em Portugal e uma realidade profundamente transformada pela guerra que nasceu o projeto.

“Pomizh” significa “entre” em ucraniano. E é precisamente nesse espaço intermédio que a exposição acontece.

Um diário entre Portugal e a Ucrânia

Mais do que uma série fotográfica tradicional, “Pomizh – in-between” aproxima-se de um diário visual.

Fotografias analógicas convivem com ilustrações, notas e testemunhos de jovens ucranianos. Alguns continuam a viver em Kiev. Outros, tal como Lena, chegaram a Portugal depois do início da guerra.

Não existe uma narrativa cronológica. As imagens surgem como surgem muitas vezes as memórias: um lugar desperta outro, um objeto transporta-nos para casa, um momento vivido em Portugal encontra inesperadamente outro vivido na Ucrânia.

E, pelo meio, há uma guerra que atravessa tudo.

Militares carregam um caixão coberto pela bandeira ucraniana. Cartuchos aparecem sobre uma mesa ao lado de flores e objetos comuns. Jovens são retratados entre paisagens, casas e lugares onde a vida continua apesar da presença constante do conflito.

É precisamente essa convivência entre o quotidiano e a guerra que dá força ao trabalho.

Não vemos apenas aquilo que acontece na Ucrânia. Vemos também o que significa partir e continuar emocionalmente ligado ao lugar que ficou para trás.

Quando aquilo que conhecemos deixa de ser exatamente igual

Regressar a casa depois de uma guerra começar também significa reaprender a olhar.

Lugares familiares, tradições, objetos e pequenos gestos passam a carregar outros significados. O que antes fazia simplesmente parte do quotidiano pode transformar-se numa memória, num símbolo de pertença ou numa lembrança daquilo que pode desaparecer.

É essa dimensão íntima que aproxima “Pomizh” de uma experiência que ultrapassa a história individual da fotógrafa.

Ao incluir outras vozes ucranianas, o projeto transforma uma experiência pessoal num retrato mais amplo de uma geração que viu a ideia de “casa” mudar de significado.

Entre 357 projetos, Braga escolheu “Pomizh”

O trabalho de Lena Ruzhytska foi selecionado entre 357 candidaturas internacionais à 13.ª edição do Prémio Encontros da Imagem.

A fotógrafa recebeu a distinção a 23 de setembro, em Braga, juntamente com um prémio de dois mil euros. Emilia Martin e Roger Grasas foram os restantes finalistas.

Criados em Braga em 1987, os Encontros da Imagem voltam este ano a transformar a região num ponto de encontro para a fotografia e as artes visuais, com mais de 30 exposições distribuídas por Braga, Guimarães, Porto, Vila Verde e Avintes.

Para ver em Braga

“Pomizh – in-between” pode ser visitada no Museu Nogueira da Silva, em Braga, até 18 de outubro.

Uma exposição sobre guerra, sim. Mas também sobre memória, distância, identidade e aquela estranha sensação de construir uma vida num lugar enquanto uma parte de nós continua noutro.