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ENTREVISTA













                   “A ansiedade,

                       a tristeza, o
                 sofrimento são

               normais e fazem
               parte da vida – é

                importante não

                ‘psiquiatrizar’ o
                      sofrimento”



             Já se fala que o consumo de ansiolíticos   A situação  que vivemos  é inédita para  to-  colas Médicas. Regressar à normalidade le-
             disparou. Tem alguns dados que possam   dos nós. E era inimaginável há 2 ou 3 meses   vará tempo, mas é necessário que a econo-
             sustentar esta afirmação? Quais os peri-  atrás. O que me pede é um exercício de fu-  mia volte a funcionar para evitarmos perdas
             gos que um consumo podem trazer, ago-  turologia e eu arriscaria dizer que as conse-  maiores para a nossa sociedade. Combater
             ra e no futuro?                      quências sociais e económicas da pandemia   a COVID19 implica não ficarmos paralisados
                                                  deixaram  marcas  mais  significativas  na  so-  pelo medo nem morrermos pela despropor-
             Penso que é cedo para avaliar a questão do
             consumo  de ansiolíticos.  Verificou-se  um   ciedade  do  que a experiência  de confina-  cionalidade da cura – o equilíbrio será muito
             aumento das vendas de ansiolíticos durante   mento. Em primeiro, porque para a maioria   importante agora que estamos a terminar a
             o mês de Março, mas isso pode traduzir um   das pessoas a situação não foi de isolamento   primeira vaga deste combate.
             fenómeno de “armazenamento” doméstico   social mas sim de distância física, dado que   Como médico do Hospital de Braga, sen-
             que  se  verificou com  diversos  bens.  Preci-  o contacto com os amigos e família se man-  tiu que há mais procura dos serviços de
             samos de mais tempo para compreender os   teve por outros meios; em segundo, porque,   psiquiatria  desde  o início  do confina-
             impactos da pandemia no consumo de psi-  como já referimos, os propósitos positivos e   mento? Acha  que essa  procura vai au-
             cofármacos. Os ansiolíticos, tal como todos   coletivos ajudam a minimizar os impactos do   mentar no pós-pandemia?
             os outros medicamentos, podem constituir   confinamento. Outro aspeto que irá mudar   Inicialmente verificou-se uma diminuição da
             um perigo se  não  forem  prescritos  por  um   diz  respeito  à  forma  como  nos relaciona-  procura em todos os serviços. Depois, pro-
             médico e se não existir monitorização ade-  mos  socialmente: em Portugal gostamos   gressivamente, as coisas estão a regressar à
             quada na sua toma. Isto é verdade para os   do  contacto  físico,  do  abraço,  do  beijo...  e   normalidade. Espera-se um aumento muito
             ansiolíticos, como também para os antibió-  isso  irá  mudar  pelo  menos  durante  algum   significativo dos problemas de saúde men-
             ticos ou para muitos outros fármacos – infe-  tempo. Mas preocupa-me sobretudo a crise   tal no período pós-pandemia. Felizmente, a
             lizmente ainda existe um estigma associado   social, económica e de saúde que a pande-  esmagadora  maioria  das  situações  deverá
             aos psicofármacos que já não se verifica com   mia trouxe e que será muito difícil, deixando   ser  acompanhada pelos  Cuidados  de  Saú-
             outro tipo de medicamentos.          marcas profundas na nossa sociedade.  de Primários, pelos Médicos de Família que
                                                  Teme  algum  ‘exagero’  e  compensação
             No caso concreto dos ansiolíticos, são medi-  desproporcionada quando as limitações   conhecem  os  seus  utentes  melhor  do  nin-
             camentos úteis para a prática clínica que de-  impostas pelo  Governo,  DGS  e demais   guém. Apenas as situações mais graves se-
             vem ser utilizados em conjunto com outros   instituições terminarem?       rão orientadas para os serviços hospitalares
             tratamentos farmacológicos  e psicotera-                                   de Psiquiatria. Esta é uma boa oportunidade
             pêuticos, no sentido de resolver problemas   No princípio todos exigiam medidas extre-  para  reorganizar  os  serviços  de Psiquiatria
             de ansiedade patológica. Servem para gerir   mas.  À medida  que  o tempo  foi passando,   (reforçando as equipas com mais Psiquiatras
             e tratar doenças. É inadequando utilizá-los   começámos a perceber que esta pandemia   e mais Psicólogos), reforçar a oferta de psi-
             para resolver questões de vida. A ansiedade,   requer medidas prudentes e, sobretudo, in-  coterapia nos cuidados de saúde primários
             a tristeza, o sofrimento são normais e fazem   teligentemente  dirigidas  às  populações  de   e reduzir as listas atribuídas aos Médicos de
             parte da vida – é importante não “psiquiatri-  maior  risco.  O colapso  do  sistema de saú-  Família. Se o fizermos, podemos certamente
             zar” o sofrimento.                   de  foi  evitado  com  as  medidas  que  foram   combater a pandemia de doenças psiquiá-
                                                  implementadas e isso valida as opções que   tricas que se espera para os próximos tem-
             Este é o primeiro evento de confinamen-
             to e isolamento social  da  sociedade  tal   foram tomadas pelo Governo e que tinham   pos.
             como a conhecemos. O que irá mudar?  sido recomendadas pelo Conselho das Es-


            08 · MAIO · 2020
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