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ESPECIAL



            A QUARENTENA


            ABRE NOVAS OPORTUNIDADES
           P           olíticas de isolamento social impostas em muitos países




                       face à pandemia afetam a economia e criam ansiedade,
                       mas estão a renovar relações, atividades e formas de
                       cultura, diz a psicóloga Laura Brito.

                       Perante o atual quadro de pandemia, vivemos momentos
                       difíceis e um clima de stress e receio, o que é normal, mas
             também podemos olhar para esta fase sobretudo como uma oportuni-
             dade,  afirma  Laura  Brito,  investigadora  do  Grupo  de  Investigação  em
             Saúde Familiar & Doença da Unidade de Investigação de Saúde, Bem-
             -Estar e Rendimento do CIPsi – Centro de Investigação em Psicologia da
             UMinho. A rotina dos portugueses tem sido feita basicamente em casa.
             Por isso, diz, “é muito importante planear as próximas semanas e em sin-
             tonia com quem vivemos, partilhando tarefas, conversas e transforman-
             do o ambiente em momentos diferentes”. Para quem está só, como os
             idosos, é fulcral “sensibilizá-los e apoiá-los para que não saiam de casa”.
             Laura  Brito nota  que  o ser  humano  tem  uma  grande  capacidade  de
             adaptação. Num ápice, passamos a realizar ensino à distância, encon-
             tros por videoconferência e cozinhados à la YouTube. A generalização   que haver apoio entre os adultos”, admite a psicóloga. A calendarização
             de vlogs, brincadeiras e desafios digitais mostra como as pessoas estão   ajuda a evitar a dependência de ecrãs (TV, tablet, consola, smartphone),
             dispostas a aliviar a ansiedade e a tornar a vida mais agradável. “A nossa   a expressão “quero jogar mais” e a pressão ocular. “Ao saltar entre ações,
             rotina mudou, o contexto de trabalho e de casa é cada vez mais o mes-  a criança pode sentir-se mais envolvida, motivada, valorizada e saudá-
             mo e devemos valorizar esta nova realidade”, devolve a psicóloga. Uma   vel”,  situa.  Em  relação  à  privacidade,  uma  videochamada  de  trabalho
             das principais preocupações é manter o emprego e pagar despesas, num   com alguém que aparece ao fundo a passar seminu ou a gritar levanta
             país em que há cada vez mais vínculos laborais precários e em que di-  questões. Laura Brito desvaloriza: “Há que ter bom senso e aceitar. Será
             versos setores económicos estagnaram. “Tudo isso é importante, mas há   que antes já não tínhamos divulgado aspetos domésticos sob outras for-
             novas medidas políticas para ajudar com esse problema e, agora, a prio-  mas?”. Relativamente a profissionais como atletas de alta competição,
             ridade é mesmo a segurança da família, apoiarmo-nos uns aos outros e   a solução é treinar em casa e com acompanhamento online. “Todos nós
             na comunidade”, defende Laura Brito, para completar a ideia: “Quando   temos que adotar estratégias de autorregulação emocional, resiliência,
             conseguirmos sair da quarentena, aí sim, virá outra etapa. Portugal já ul-  motivação e focar-nos nos objetivos mais próximos”, realça.
             trapassou dificuldades económicas e temos grande resiliência. Os nos-
             sos pais também se tiveram que adaptar a mudanças, a tecnologias e a   Apoiar e conversar com idosos
             outros contextos”.                                      No caso dos idosos isolados, a situação “é bastante delicada”. “Temos
             Partilhar tarefas e respeitar silêncios                 que trabalhar em comunidade e auxiliar a pessoa sozinha, como manter
                                                                     a sua comunicação regular com a família, ainda que seja por redes so-
             E como se gere o quotidiano familiar confinado a quatro paredes, evitan-  ciais, telemóvel ou videochamada, ou então com o vizinho que converse
             do riscos de violência doméstica, divórcio e pressões? “Esta conjuntura   da janela ou do muro e lhe faça as compras de forma voluntária para que
             permite às famílias estarem mais próximas, fisicamente e online, com-  não saia de casa nem se exponha ao vírus”, sugere. Laura Brito lembra
             pensando ausências que a vida e o trabalho até aqui não permitiam”,   que, neste grupo etário, a literacia em saúde é em geral baixa e que os
             refere a investigadora. Assim, é imperioso definir metas claras a curto   próprios idosos podem não aceitar a mensagem ou abordagem dos fi-
             prazo, como cumprir horários de sono e de refeições (saudáveis, para um   lhos,  mas  é  essencial  que  conheçam  as  recomendações  da  Direção-
             bom sistema imunitário) e praticar exercício físico (os vídeos online aju-  -Geral de Saúde e da Organização Mundial de Saúde. “Para quem tem
             dam). “Deve-se distribuir tarefas domésticas adequadas à idade de cada   demência, é importante referir ações e não factos, como exemplificar ou
             familiar. Deve-se partilhar desde medos e opiniões até momentos como   mostrar imagens sobre a lavagem correta das mãos, para se memorizar”,
             refeições, séries de TV, jogos de tabuleiro, trabalhos manuais e oficinais,   contextualiza. Em simultâneo, deve-se manter o cérebro e o corpo ativo,
             jardinagem, andar de bicicleta ou fazer atividades ao ar livre”, enumera   a alimentação equilibrada, as rotinas, vigiar a saúde e evitar acidentes.
             Laura Brito. Esta postura leva a aprender em conjunto e a olhar o am-  Nos lares, “procura-se desenvolver também competências cognitivas e
             biente e transformá-lo com união e empatia, anui. Quanto às relações in-  sociais e o contacto à distância com entes próximos”. Laura Brito fez toda
             terpessoais, “este é um grande teste”: “Exige muito diálogo e compreen-  a sua formação superior na UMinho: é licenciada em Psicologia, mestre
             são, colaboração nas tarefas e respeito pelos momentos de silêncio, pois   em Psicologia da Saúde e atualmente doutoranda em Psicologia Aplica-
             também precisamos do nosso espaço para relaxar, refletir e imaginar”.   da, com uma tese sobre cuidadores informais de pessoas com demência,
             Certo. E como conjugar teletrabalho adulto com crianças em modo fé-  que se integra no “Projeto IADem de Investigação-Ação nas Demências”
             rias, mas com professores a pressionar com TPC e vídeo-aulas? “Os miú-  e é uma parceria entre o CIPsi, a Santa Casa de Misericórdia de Ponte da
             dos adaptam-se facilmente às coisas, sobretudo nas tecnologias. Tem   Barca e a Unidade Local de Saúde do Alto Minho, em Viana do Castelo.
             que lhes ser bem explicado o que está em causa, planear-se bem os dias
             com horários para trabalhar, para lazer e para ações comuns e, sim, tem   (Texto de Nuno Passos)



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