Durante semanas, os campos de girassóis da veiga de Carreço, em Viana do Castelo, receberam milhares de visitantes seduzidos por uma paisagem que parecia saída do quadro de Vicente van Gogh. Pouco tempo depois, as flores desapareceram. Cortadas, ensiladas e transportadas até à Quinta da Pegadinha, em Chorente, Barcelos, passaram a alimentar vacas leiteiras, enriquecendo o leite que dá origem a um queijo artesanal. Entre o instante captado por uma objetiva e o alimento que chega à mesa, há um ciclo invisível que revela a extraordinária inteligência da natureza — e a visão de uma família que nunca semeou girassóis para serem fotografados.
Há lugares que se fotografam. E há lugares que nos fotografam por dentro. Antes mesmo de fazer a primeira pergunta, foi um casal que me ‘contou’ a primeira história. Caminhava de mão dada entre os corredores de girassóis, sem pressa, como quem sabia que a luz mais bonita do dia dura apenas alguns minutos. Paravam para uma fotografia, sorriam um para o outro, gravavam pequenos vídeos e retomavam o caminho embalados pelo vento que fazia ondular as flores douradas. Durante alguns instantes, foi difícil perceber quem iluminava quem.
Foi então que percebi que esta reportagem nunca seria apenas sobre girassóis. Porque aqueles campos, que durante semanas atraíram milhares de visitantes, escondiam uma história muito maior do que a fotografia perfeita. Uma história que termina mais a sul, na Quinta da Pegadinha, em Chorente, já no concelho de Barcelos. É ali onde os girassóis cumprem, finalmente, o destino para o qual sempre foram semeados. Ali deixam de ser plantas. Passam a ser alimento. E, meses depois, regressam à mesa em forma de leite e queijo.
Ao longo dos meses de junho e julho, bastava abrir uma rede social para encontrar fotografias do pôr do sol refletido nas pétalas amarelas, famílias a caminhar entre as flores ou casais que ali guardavam uma memória de verão.
Vieram pessoas de todo o país. Os carros alinhavam-se ao longo da estrada, os telemóveis substituíam as máquinas fotográficas e os tripés multiplicavam-se à medida que o sol se aproximava do horizonte. Mas havia uma pergunta que quase ninguém fazia. Porque existem estes campos?
A resposta não estava diante das objetivas. Estava escondida no futuro daquelas plantas. Seguir o caminho de um girassol obriga-nos a deixar Carreço e a percorrer pouco mais de 50 quilómetros até Chorente.
Aqui a paisagem muda. O amarelo dá lugar ao verde das pastagens e das vinhas. O silêncio é interrompido pelo som dos tratores e pelo mugido das vacas. É aqui que tudo ganha sentido.
Na Quinta da Pegadinha, ninguém fala dos girassóis como uma atração turística. Fala-se de produção. De alimentação animal. De solos. De chuva. De custos. De leite. E de futuro. Porque, muito antes de encantarem milhares de visitantes, aqueles girassóis já tinham uma missão. Nunca nasceram para permanecer eternamente de pé. Nem para viver presos à moldura de uma fotografia. Nasceram para serem colhidos. Triturados. Misturados com milho. Conservados em enormes silos. E alimentarem, ao longo de todo o ano, as vacas leiteiras que fazem parte do quotidiano da quinta.
“Acaba por ser genético. Sou muito parecido com o meu pai. Nunca tive dúvidas deste caminho. (...) Vivemos num país extraordinário para viver, mas muito difícil para ganhar dinheiro e pagar contas. Para um jovem com ambição, é muito complicado.
Na Quinta da Pegadinha o tempo não se conta em anos. Conta-se em vindimas, sementeiras, partos, colheitas e amanheceres passados no campo. É uma quinta de agricultura familiar, onde a palavra "família" não serve apenas para contar uma história. É a forma como tudo acontece. O trabalho reparte-se entre pai, filho, um ou dois colaboradores e a ajuda pontual de quem é preciso chamar quando a terra exige mais mãos do que as que a casa consegue oferecer.
É ali que Miguel Lemos passou grande parte da vida. E é ali que o filho, Filipe, continua a escrever uma história que começou muito antes de ele nascer.
A exploração nem sempre viveu do leite. Produziu uva, aguardente e criou animais de trabalho. No início da década de 1990, o aumento da carga fiscal sobre a aguardente obrigou a família a reinventar-se. Em vez de desistir, apostou na produção leiteira. Vieram vacas frísias da Dinamarca, escolhidas pela qualidade genética. A partir daí, a quinta passou a assegurar a recria dos próprios animais e construiu uma base sólida que ainda hoje sustenta a exploração.
"NUNCA TIVE DÚVIDAS DESTE CAMINHO"
Enquanto muitos jovens olham para a agricultura como um passado de onde querem sair, Filipe Lemos nunca imaginou outro futuro. Cresceu entre vacas, tratores, vinhas e campos de milho. Quando chegou o momento de escolher uma profissão, a decisão surgiu naturalmente. Estudou Engenharia Agronómica na Escola Superior Agrária (ESA), da agora Universidade Politécnica de Viana do Castelo (UNIPVC), em Ponte de Lima, e aprofundou conhecimentos em Enologia e Viticultura. A decisão já estava tomada muito antes de entrar na universidade. "Acaba por ser genético", diz, entre sorrisos. "Sou muito parecido com o meu pai. Nunca tive dúvidas deste caminho”, confessa.
Não há romantismo na forma como fala da agricultura. Há consciência. Sabe que trabalhar a terra continua a ser um desafio enorme para quem quer construir uma vida. "Vivemos num país extraordinário para viver, mas muito difícil para ganhar dinheiro e pagar contas. Para um jovem com ambição, é muito complicado”, admite. A frase fica suspensa durante alguns segundos. Porque não é um desabafo. É uma realidade partilhada por muitos agricultores da sua geração. Apesar disso, nunca equacionou abandonar a quinta. Pelo contrário. Preferiu encontrar formas de lhe acrescentar valor.
Hoje, além da produção de leite, a família aposta em vinhos engarrafados com marca própria e na produção de queijo artesanal. "Fazemos a uva e o leite e tentamos transformá-los em vinho e queijo com valor acrescentado”, diz, com orgulho. É uma estratégia que exige tempo. E paciência. Até porque, sabe que “construir uma marca demora muitos anos”. Talvez seja essa a frase que melhor define esta exploração. Porque uma marca não nasce apenas de um produto. Nasce da persistência. Da capacidade de reinventar uma tradição sem perder a sua identidade. E é exatamente isso que acontece com aqueles girassóis. Durante poucos dias oferecem um espetáculo de cor. Durante todo o resto do ano continuam, silenciosamente, a cumprir a missão para a qual foram semeados.
O filho continua as ideias do pai. Filipe gosta de dizer que é "pupilo" do pai. A expressão surge naturalmente, sem qualquer ensaio. "Sou pupilo do meu pai. As ideias e os trabalhos são dele. Eu acrescento o meu cunho”. Aqui existe continuidade. Miguel abre caminhos. Filipe percorre-os com novas ferramentas, novos conhecimentos e uma visão que junta a experiência aprendida no campo ao conhecimento adquirido na universidade.
É dessa combinação que nascem muitas das decisões que hoje distinguem a Quinta da Pegadinha. Como a aposta em pequenas produções de vinho, trabalhadas manualmente e sem recurso a herbicidas. Ou a criação de um queijo artesanal desenvolvido em parceria com a ‘Laticínios das Marinhas’, em Esposende. Entre as propostas mais diferenciadoras, receitas com mais de sete décadas, surgem o queijo enriquecido com orégãos e alho e outro com pinhão e amêndoa portuguesa tostada no forno. “É um produto improvável”, confessa.
QUANDO A EUROPA TROUXE OS GIRASSÓIS
É curioso pensar que um dos cenários mais fotografados deste verão nasceu de uma obrigação burocrática. Não houve um plano para criar uma atração turística. Nem uma estratégia de marketing. Muito menos a intenção de transformar um campo agrícola num fenómeno das redes sociais.
Tudo começou há cerca de sete anos, quando um programa europeu incentivava os agricultores a diversificarem as culturas. Entre as regras previstas estava a necessidade de dedicar uma parte da exploração a espécies diferentes do milho.
Na Quinta da Pegadinha, Miguel Lemos já fazia rotações de culturas. Ainda assim, decidiu experimentar uma alternativa que parecia fazer sentido para a realidade da exploração: o girassol.
"As vacas gostam muito desta planta forrageira. Sempre trabalhámos para os animais. Nunca pensámos que houvesse público interessado em ver girassóis. (...) Começamos a ver tantos carros (...) O telefone nunca mais parou de tocar”.
A escolha foi tudo menos estética. Nas zonas de sequeiro, onde a água é um recurso cada vez mais precioso e os custos da rega pesam no orçamento, aquela planta revelava vantagens importantes. Precisava de menos água, adaptava-se bem ao clima e, acima de tudo, despertava um entusiasmo inesperado nas destinatárias. "As vacas gostam muito desta planta forrageira", atira o jovem agricultor. "Sempre trabalhámos para os animais. Nunca pensámos que houvesse público interessado em ver girassóis”, admite, ainda surpreendido com “o fenómeno”.
Num concelho como Barcelos, onde a agricultura continua a ocupar um lugar central e onde se produz uma parte significativa do leite nacional, encontrar grandes áreas disponíveis tornou-se cada vez mais difícil. A solução apareceu em Viana do Castelo. Através de pessoas conhecidas, Miguel Lemos conseguiu arrendar terrenos agrícolas na veiga de Carreço, muitos deles parados e sem utilização. Havia ali uma característica que rapidamente chamou a atenção: a proximidade do mar. "O meu pai percebeu que, junto à costa, a amplitude térmica é menor. Os orvalhos da manhã acabam por ajudar muito a planta”. Foi uma descoberta importante. Enquanto outras culturas exigem regas frequentes, o girassol adapta-se naturalmente àquele ambiente. Todos ganharam. A terra voltou a produzir. A exploração encontrou espaço para crescer. E, sem que ninguém pudesse prever, nasceu uma das paisagens mais fotografadas do Minho.
E, de repente, chegaram os carros. Primeiro foram alguns curiosos. Depois apareceram mais. Alguém publicou uma fotografia. Outro partilhou um vídeo. Seguiram-se centenas de comentários, milhares de visualizações e um fenómeno que ultrapassou tudo aquilo que Miguel e Filipe alguma vez imaginaram. "Começámos a ver tantos carros...". A surpresa depressa deu lugar à consciência de que havia ali uma oportunidade inesperada. “Como já tínhamos produtos para vender, porque não aproveitar para dar também a conhecer às pessoas?”, lembra.
O telefone “nunca mais parou de tocar”. As perguntas repetiam-se diariamente. "Até quando ficam floridos?", "Ainda vale a pena ir?", "Qual é a melhor hora para visitar?". A resposta dependia sempre da natureza. Porque a floração dura pouco. Cerca de 15 dias. Depois, a planta começa lentamente a mudar. É aí que acontece um dos fenómenos mais fascinantes do mundo vegetal. Enquanto é jovem, acompanha o percurso do sol ao longo do dia. Desde o nascer até ao entardecer, roda lentamente em busca da luz. É o heliotropismo, um mecanismo que lhe permite captar mais energia para crescer. Mas, quando amadurece e começa a formar as sementes, deixa de o fazer. Fica voltada para o leste. Como se, depois de uma vida inteira à procura da luz, soubesse finalmente onde ela nasce. Talvez seja essa a razão pela qual o girassol fascina há séculos. Não é apenas uma planta. É um símbolo. Da esperança. Da persistência. Da procura.
Quando Vincent van Gogh pintou a célebre série de quadros ‘Os Girassóis’, entre 1888 e 1889, procurava muito mais do que reproduzir uma planta. Procurava pintar a luz, a vida e a força que existe nas coisas simples. As flores tornaram-se um dos maiores símbolos da história da arte precisamente porque pareciam conter essa energia silenciosa que continua a emocionar quem as contempla.
Mais de um século depois, milhares de pessoas continuam a sentir esse mesmo fascínio. Foram a Carreço por causa de uma fotografia. Mas acabam por encontrar qualquer coisa difícil de explicar. Já para Miguel e Filipe Lemos, aquela procura termina sempre no mesmo lugar: na quinta.
QUANDO AS FLORES ALIMENTAM
Há um dia em que os girassóis deixam de olhar para o céu. As pétalas caem, o amarelo perde intensidade e os visitantes desaparecem. Enquanto milhares de visitantes regressavam a casa com fotografias, na quinta ninguém esquecia aquilo que realmente importava. A colheita aproxima-se. Porque, quando o último automóvel abandona Carreço e os telemóveis deixam de apontar para os campos, começa a verdadeira viagem dos girassóis. É nesse momento que a paisagem deixa de ser postal. E volta a ser agricultura, inovação, família.
Quem regressa à veiga de Carreço algumas semanas depois encontra um campo silencioso, onde já não há telemóveis apontados às flores nem filas de carros à espera do pôr do sol. Mas, para pai e filho, é precisamente aí que tudo começa. Os tratores entram no campo. As plantas são cortadas, trituradas e seguem viagem até Chorente.
“No silo fazemos duas camadas de milho e uma de girassol. Só com girassol não é possível. É uma planta muito rica em óleo e temos de equilibrar tudo. Dá mais trabalho e obriga a uma logística muito maior. (...) Se der isto assim a uma vaca, ela adora. (...) As vacas estão no paraíso.
À chegada à Quinta da Pegadinha, as toneladas de matéria vegetal são descarregadas. O cheiro da silagem invade o ar, intenso e doce ao mesmo tempo. Sobre o chão, tratores espalham cuidadosamente cada carga e formam-se camadas compactas que serão depois prensadas para conservar o alimento durante todo o ano. "É assim que conseguimos alimentar as vacas quando já não há nada no campo", explica Filipe. A técnica parece simples. Mas está longe de o ser. O girassol possui uma elevada concentração de óleo, o que obriga a um processo de conservação muito específico. "No silo fazemos duas camadas de milho e uma de girassol. Só com girassol não é possível. É uma planta muito rica em óleo e temos de equilibrar tudo. Dá mais trabalho e obriga a uma logística muito maior”, sublinha o jovem agricultor, referindo que o milho continua a ser a principal fonte de energia da alimentação. O girassol acrescenta-lhe gordura de elevada qualidade, rica em ómega 3, 6 e 9, o que enriquece o leite que, mais tarde, dará origem ao queijo produzido pela família.
Enquanto fala, pega num punhado da mistura acabada de preparar. Sorri. "Se der isto assim a uma vaca, ela adora”. É um gesto espontâneo, quase carinhoso, que diz muito sobre a relação que existe entre quem trabalha a terra e os animais que dela dependem.
Ao perguntar-lhe se as vacas vivem no paraíso, Filipe responde com um sorriso: "as vacas estão no paraíso”. Poderia soar a exagero. Mas basta observá-las durante alguns minutos para perceber que não é. Ao contrário do que acontece em muitas explorações intensivas, aqui os animais não vivem fechados entre quatro paredes. Escolhem. Saem para o pasto quando querem. Regressam ao abrigo quando o calor aperta ou a chuva cai. Ninguém as obriga. "Elas decidem. Se querem ir para o campo, vão. Se preferem ficar cá dentro, ficam. Também não misturamos toda a alimentação. Elas escolhem aquilo que querem comer”.
HÁ LUGARES QUE NOS FOTOGRAFAM POR DENTRO
Quando regresso mentalmente àquele fim de tarde em Carreço, já não me lembro apenas dos girassóis. Lembro-me do casal. Continuo a vê-lo de mão dada, a caminhar devagar entre as flores, a interromper o percurso apenas para mais uma fotografia, mais um vídeo, mais um sorriso partilhado. Naquele instante, pareciam apenas duas pessoas felizes a aproveitar um fim de tarde de verão.
Talvez um dia voltem, encontrem novos girassóis e continuem a sorrir da mesma forma. Ou talvez levem consigo apenas a memória de um lugar bonito. E isso basta. Porque há lugares que se fotografam. E há lugares que nos fotografam por dentro. Os campos de girassóis da veiga de Carreço fazem parte desse raro segundo grupo. Não porque sejam os mais bonitos. Nem porque tenham conquistado as redes sociais. Mas porque nos lembram uma verdade simples, tantas vezes esquecida: a natureza nunca cria beleza por acaso. Às vezes, cria-a apenas para nos fazer parar. Outras vezes, cria-a para alimentar. E, de vez em quando, consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo... até porque aqui o sol brilha todos os dias.
O CAMPO VISTO PELOS VISITANTES
Paula Rodrigues, Braga
"Já tínhamos vindo cá em 2021 e voltámos este ano. Ouvimos falar e decidimos voltar. Adoro girassóis. É uma planta importante e o facto de girar atrás do sol é tão interessante. Quando soubemos que serviam para alimentar as vacas da quinta ainda ficámos mais curiosos. É tão interessante ver projetos diferentes como este.”
Madalena Simões e Jorge Simões, Barcelos
"Toda a gente andava a falar. Nas redes sociais não aparecia outra coisa e decidimos vir. É a primeira vez que vemos estes campos e adorei. É tão lindo. Que cenário bonito. Gostamos imenso da experiência. Foi um passeio muito agradável. Valeu mesmo a pena.”
Andreia Carneiro, Amares
"Foi a primeira vez que viemos. Queria ir à praia e como já tinha ido para esta zona há uns anos fui pesquisar na internet e apareceu logo o campo dos girassóis. Fomos surpreendidos com este campo enorme e com os girassóis muito grandes, muito amarelos e vivos. O pôr do sol foi brutal. Destaco ainda o facto dos donos terem aberto alguns ‘caminhos’ e colocado pallets para vermos melhor."




