Uma mulher de fibra, difícil de vergar, avessa a fotografias e amante do trabalho em equipa. Uma aposta do presidente da Câmara de Braga que quer fazer deste evento uma referência europeia.

- Sendo muito jovem, explique-me como apareceu na liderança das Festas de São João de Braga.

Na verdade, estou ligada ao São João de Braga desde 2014. Estive na equipa de comunicação, logo obtive uma ligação muito próxima com a organização da festa. Gosto de defender aquilo que é nosso, a nossa matriz identitária e, particularmente, aprecio desafios.

 

- Qual o maior desafio das Festas de São João?

São vários. Idealizar um programa com 400 horas. Unir as pessoas. É muita gente que está connosco na organização. Fazer a gestão no terreno e operacionalizar aquilo que desenhamos. Depois é chegar à meia noite do dia 24, sentir que correu bem e que cumprimos.

 

- Tem dormido pouco?

Muito pouco. Para além do São João que tem desafios constantes, tenho o Bernardo (filho) que marca a agenda pessoal.

 

- Acredita que o Bernardo sente que a mãe está menos presente?

O Bernardo teve sempre uma mãe muito agitada. Tento ter uma gestão equilibrada, tento não perder nenhum momento da vida do Bernardo, mas nem sempre é fácil. Acredito que o possa sentir, como sei que é reconfortante chegar a casa e ter o sorriso dele à minha espera.

 

- Preside a Associação de Festas de São João de Braga (AFSJB) desde este ano. Como a encontrou?

Na verdade, fui encontrada pela Associação. Estava algures na Universidade do Minho e lembro que alguém me telefonou a dizer que precisava de mim na equipa de comunicação. Até chegar ao lugar que ocupo estive com o Rui Ferreira e depois com o doutor Firmino. Não foi surpresa o que encontrei porque já conhecia grande parte das pessoas. Como pode adivinhar são festas que me dizem muito e que as conheço por dentro.

 

- O que é “conhecer por dentro”?

É perceber de que forma é desenvolvido o programa. Saber que tipo de pessoas são necessárias e que têm o perfil certo para assumir determinadas funções. Temos uma ‘bolsa de voluntários’, mas as 50 pessoas que estão na coordenação também elas são voluntárias. São várias equipas que vão desde a venda ambulante até à parte da comunicação. Saber encontrar os perfis certos é um desafio constante.

 

- Há desilusões no meio deste processo?

Desilusão não diria porque é uma palavra muito forte. Há é sempre desafios e traços que temos que ir limando (risos). Importa é espicaçar e desafiar as pessoas. É este o meu papel. Quando as coisas correm menos bem, é falar cara a cara, olhar nos olhos e ter conversas francas.

 

- Presumo que não vá para casa com algo mal resolvido…

Não. Se há coisa que não consigo é deitar-me na travesseira e deixar coisas por resolver.

 

- Sendo a primeira mulher a estar à frente das Festas de São João, notou em algum momento ‘olhares desviantes’?

Sinceramente foi tudo muito pacífico porque eu estou ligada à festa há mais de uma década. Os próprios associados e a equipa conheciam-me. As próprias associações que estão a trabalhar connosco também me conheciam. Fui tesoureira e isso facilitava o contacto. Não senti nenhuma resistência.

"Temos muitas horas de programação, com muitas pessoas envolvidas…não se encontra esta ‘marca’ em outras festas populares. Por isso, assumimos com muito orgulho que somos a maior festa popular de Portugal. Convém também dizer que somos detentores da mais antiga festa sanjoanina do nosso país."

- Lembra-se do dia em que o Presidente a convidou?

Lembro.

 

- Que desafios lhe pediu?

O primeiro foi de trabalhar no sentido de fazermos regressar as ‘barraquinhas’ à Avenida da Liberdade. Foi muito objetivo: vejam o modelo, estudem e definam o caminho. Depois deu-nos espaço para nós criarmos ideias no sentido de sermos tradicionais, sem perder a nossa linha identitária. No fundo, trabalhar a tradição e garantir inovação.

 

- Ficou surpreendida com o convite?

Muito surpreendida. Não contava porque estava num momento muito particular da minha vida (ser mãe). No entanto, foi um convite que me deixou muito orgulhosa.

 

- O que a convenceu?

O poder fazer a diferença nas Festas de São João. Poder continuar ligada a este projeto.

 

- É fácil trabalhar com o Presidente?

Muito fácil. Temos muitas conversas para garantir que estamos alinhados. Só faz sentido desta forma. Trabalharmos em conjunto. Temos tido muito apoio de toda a estrutura municipal.

 

- Este é o maior desafio da sua vida?

É o segundo maior desafio, porque o primeiro chama-se Bernardo (risos). 

 

- Acredita piamente que a Festa de São João de Braga é a grande festa popular de referência em Portugal?

Acredito. Aliás, é uma das bandeiras que temos apadrinhado, desde há alguns anos, e percebemos rapidamente o porquê. Temos muitas horas de programação, com muitas pessoas envolvidas…não se encontra esta ‘marca’ em outras festas populares. Por isso, assumimos com muito orgulho que somos a maior festa popular de Portugal. Convém também dizer que somos detentores da mais antiga festa sanjoanina do nosso país.

 

- O que a diferencia da Festa de São João do Porto?

Primeiro pelo volume de horas de programação. Nós temos sete dias de festa enquanto que no Porto tudo é concentrado numa só noite. De um lado temos uma festa de cartaz, do outro uma festa de tradição. A nossa festa apela muito à nossa memória, às nossas raízes identitárias, no fundo, a toda a identidade do concelho.

"Queremos descentralizar o São João. As freguesias são o melhor pilar para cumprir este desígnio. Os Presidentes de Junta são os melhores ‘avançados’ para estarem junto da comunidade."

- Como foi preparado o programa para equilibrar tradição e inovação?

Dou-lhe um exemplo: o eixo de sustentabilidade é uma grande preocupação que temos. Nesse sentido, vamos medir a nossa pegada de carbono num dos nossos concertos, na lógica de trabalhar a sustentabilidade com a inovação. É uma ‘start-up’ que vai fazer esse trabalho. Fazemos isso num concerto tradicional que está na génese da nossa tradição. Vamos passar a ter uma série de dados para trabalharmos o ‘São João’ daqui para a frente. Este é apenas um exemplo de como cruzamos o tradicional com a inovação.

 

- Vamos ter um ‘São João’ com uma cara diferente?

Acredito que sim. Acredito porque vamos trazer uma série de elementos que não estavam na programação do ano passado. Poder reforçar a ligação do centro histórico com o Parque da Ponte é algo que irá, estou certa, dar maior dimensão ao evento. Não estou a menosprezar o legado que herdei. Nada disso. Vai estar vertido naquilo que é o nosso São João. Os ‘mini-palcos’ que vão estar instalados na Avenida - onde irão atuar os nossos artistas - acredito que vai ser do agrado de todos.

 

- 400 horas de programação. Não são horas a mais?

De facto, é muita hora. A ideia é chegarmos a todos os públicos. Há iniciativas dos mais novos aos mais velhos. É esta amplitude que faz do São João de Braga um evento particular. O desafio é mobilizar as pessoas para as várias iniciativas.

 

- O concelho tem 37 freguesias. Uma das primeiras medidas que adotou foi reunir com os Presidentes de Junta. Qual foi o apelo que deixou?

Os Presidentes de Junta são essenciais. Deixei-lhes uma carta com três grandes desafios: a importância do regresso das ‘barraquinhas’ na Avenida da Liberdade, onde é fundamental o envolvimento das associações, mostrar o que fazem; fazerem as instalações artísticas das suas freguesias. Queremos descentralizar o São João. As freguesias são o melhor pilar para cumprir este desígnio. Os Presidentes de Junta são os melhores ‘avançados’ para estarem junto da comunidade. Por fim, o terceiro desafio é garantir o máximo envolvimento das associações nos nossos cortejos. O cortejo etnográfico é um bom exemplo. A reunião serviu para identificar novos atores para robustecer o que já temos. 

 

- Há muitos ‘cabelos brancos’ nas associações. Acredito que seja difícil seduzir a juventude para o voluntariado e por fazer acontecer…

É verdade e gostamos de os ter. Preservamos muito o legado. Em relação à juventude…o mais novo tem 20 anos e o mais velho 86. Somos heterogéneos não só na idade, como no perfil de cada um. Conseguimos ter várias gerações reunidas…

 

- Não é equação preocupante para os próximos anos?

Não.

 

- No contexto que estamos a falar, é a fé que move o voluntário?

É a fé e a vontade de fazer a diferença pela comunidade. Na organização, no grupo das 50 pessoas, temos muita gente ligada ao associativismo. Há um sentido de responsabilidade comum. Trazem a experiência das paróquias onde residem para esta festa do concelho. Entregam ao concelho aquilo que melhor fazem.

"Há uma crise nos media. Sou da área e entendo bem. As redações estão ‘presas’. É mais fácil divulgar o que está entre nós do que o que existe ao lado. Por poucos quilómetros que sejam. Há muito jornalismo feito a partir das secretárias. É um desafio enorme termos aqui a imprensa nacional. Há muito centralismo. Começa no Santo António (Lisboa) e termina no Porto. Por mais argumentos que tenhamos. Temos de convencer os meios de comunicação, como veículos de mobilização nacional, que temos um São João único no país."

- Isto que descreve é o melhor ‘combustível’ para resistir aos dias difíceis…

Sem dúvida. É saber que não posso falhar com esta gente. São pessoas que confiaram em mim. Que lhes pedi e que não posso desiludir.

 

- Os incondicionais estão consigo?

Estão. Com esses, basta olhar. Não é preciso falar. 

 

- Por estes dias, quantas vezes toca o seu telemóvel?

Não faço ideia (risos). O que sei é que nas últimas semanas tem tocado muitas vezes. Por alto…talvez mais de 150 chamadas por dia.

 

- Delega funções com facilidade?

Sim. A única coisa que lhes peço é que no final da linha quero ter a visibilidade das coisas. Faço isso porque posso ser interpelada e quero ter uma resposta.

 

- O que ainda falta ao ‘São João de Braga’ para ser uma referência europeia entre as festas populares?

Acredito muito nesta festa. Temos um potencial tremendo. No entanto, temos um desafio para vencer antes de entrarmos na vertente internacional. Temos que consolidar esta festa em Portugal. Não podemos negar que temos a concorrência de um São João que está a 60 quilómetros (Porto) e que tem uma força mediática muito grande. Já temos trabalhado com a Galiza, com várias ações de comunicação e ativações de marca. No entanto, achamos que está na altura de consolidar a nossa marca em Portugal. Esse é o nosso foco.

 

- O que falta fazer para essa consolidação?

Basta olhar para os media. É conseguir convencer a imprensa que temos um São João tão bom ou melhor do que existe no Porto. Não há problema nenhum fazer a A3. Há uma crise nos media. Sou da área e entendo bem. As redações estão ‘presas’. É mais fácil divulgar o que está entre nós do que o que existe ao lado. Por poucos quilómetros que sejam. Há muito jornalismo feito a partir das secretárias. É um desafio enorme termos aqui a imprensa nacional. Há muito centralismo. Começa no Santo António (Lisboa) e termina no Porto. Por mais argumentos que tenhamos. Temos de convencer os meios de comunicação, como veículos de mobilização nacional, que temos um São João único no país. É um trabalho que está a ser feito.

 

- Um trabalho que vai alavancar rumo à internacionalização?

Acredito que sim. A Galiza é um bom exemplo. Temos muitos espanhóis que marcam férias para vir ao nosso São João. Sabemos que na Galiza também há muitas festas em honra deste santo. Temos trabalhado neste segmento regional para garantir a internacionalização do São João. O nosso trabalho é para internacionalizar a marca, consolidando-a em Portugal. Para nós, faz sentido fazer este trabalho em paralelo.

 

- Consegue vislumbrar a 10 anos esse trabalho consolidado?

Sim. Diria que daqui a 10 anos vamos conseguir ter a marca do São João de Braga. Não me quero comprometer, porque o meu mandato é de quatro anos, mas acredito que já tenhamos essa força suficiente para chegarmos a públicos fora do país.

 

- Tem ideia do impacto económico que provoca o São João no concelho?

Fizemos uma parceria com a Associação Empresarial de Braga (AEB), onde vamos fazer um estudo aprofundado para avaliarmos o impacto económico do evento na cidade ao longo dos sete dias. O ano passado foram 20 milhões em transações no nosso comércio. É um número bastante significativo.

 

- Há alguma memória de infância ligada ao São João que a acompanhe até hoje?

Tenho boas recordações. Lembro-me de descer a Avenida da Liberdade com os meus avós, percorrer as ‘barraquinhas’ e ir atrás dos benditos manjericos. Gostava que o meu avô me fizesse parar junto aos ‘bombos de São João’ que estavam nas ‘barraquinhas’. Poder comprar um ou outro e levá-los para casa. Fazer barulho. É uma memória que tenho muito presente…ele já faleceu, deu-me muito carinho, colo, cresci com ele…

 

- Quando desce e sobe a Avenida da Liberdade é comum lembrar-se do seu avô?

Muitas vezes.

 

- O que lhe diz?

É uma pergunta muito difícil…só lhe posso dizer que era uma pessoa de força e de muito colo.

 

- Herdou a força do avô?

Quero acreditar que sim. Quero acreditar que muito dos meus genes são dele. Acredito porque ele também era um homem de desafios, de muita força e muito trabalho.

 

- Um dia normal para si é um dia de trabalho?

Sim, é.

 

- Tem dificuldade em gerir o silêncio?

Muito difícil. Confesso que não sou uma pessoa de silêncios. Por isso é que falo muito (risos).

 

- Inquieta-a?

Deixa-me muito apreensiva.

 

- Se eu arquitetar agora um contexto de silêncio com 10 segundos. O que lhe provoca?

Tentar sair rapidamente do silêncio.

 

- Sente-se desconfortável?

Sim.

 

- Está preparada para ‘levar na cabeça’ com os martelos da festa?

Estou preparada para sentir o cheiro dos manjericos (risos). As marteladas também são um símbolo, mas as ervas de cheiro são mais agradáveis.

 

- Qual a palavra que tem mais ouvido estes dias?

É uma boa pergunta… ‘barraquinhas’! Espero que o modelo que vamos apresentar tenha sucesso e que, para o ano, todas as freguesias estejam representadas.

 

- Qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar até agora?

Outra boa pergunta… reajustar alguns momentos do nosso programa.